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Memória...
Dias desses, rompendo a solidão com minha meio abandonada gaita, de repente me surpreendi soltando as notas da música do filme AMARCORD, num certo dialeto da Itália, RECORDAÇÕES. O filme, dirigido magistralmente por Fellini, tendo como narrador um personagem, que aparece “conversando” com o espectador, e um garoto, Titta, como (por que não?) um Fellini na infância, revela o prazer das recordações, da busca da memória – antes que se perca – e o reviver de momentos deliciosos. Tais como esta coluna, com o devido perdão dos leitores, usa e abusa em fazer. Em AMARCORD, não se mostra uma história, mas, digamos, flashes, momentos de uma infância e adolescência de uma pessoa sensível. Aquela música deliciosa, do grande Nino Rotta (também de outros belos filmes) maravilhava minha cabeça. Então, cenas como o desejo pouco escondido dos meninos pelos enormes seios e enormes bundas de certas personagens do filme, como a cabeleireira Gradisca e a gorda mulher da tabacaria... O sonho por um passeio em um transatlântico, as cenas trágico-cômicas de Teo - um pobre doente mental, tio de Titta - a crítica ao fascismo na homenagem a Mussolini... Enfim, é preciso ver o filme. Muita coisa, claro, guardadas as devidas proporções, remetem-me à minha adolescência em Atibaia.
E, assim, por que não concretizar pelas palavras, se é que por elas é possível tornar concreta a lembrança das coisas de 50, 60 anos atrás?... Vamos lá, pois.
Como se tivesse nas mãos uma câmera, vejo, lá naquelas lonjuras do tempo, o Padre Feliciano Grande, lá na Igreja da Matriz, após a missa das 8, meio desesperado tentando, com todos os meios possíveis impedir que a molecada fosse embora sem participar das aulas de catecismo, oferecidas pelas pacientes catequistas, como a Da.China. O padre, na sua força de vontade chegava a abrir os braços, cercando os garotos, falando com sotaque espanhol que “no van embora”. E a gente ficava. E levar flores para Nossa Senhora no mês de maio...
A igreja, muitas vezes era o centro da atenção de algumas crianças, inclusive eu. Havia o mistério de saber o que havia atrás do altar, como se tocavam os sinos. Assim, era fantástica a aventura de subir à torre da Matriz, para ver o sino e Atibaia do alto. Os edifícios de hoje não estavam ali. E o momento então de o relógio tocar as horas era esperado como um medo do barulho. Como no romance de Eça de Queirós O crime do Padre Amaro, a palavra “sineiro” ressurgiu na minha memória, pois o padre Amaro tinha seus encontros furtivos com a doce garota Amélia no sineiro da igreja. Está lá no livro. É só ler.
Havia as populares figuras que a gente jamais esquece. Entre elas, o Chico Cruz. Hoje, distante e com toda experiência, jamais repetiria o que nós, os moleques, fazíamos como Chico Cruz: sabendo que ele, sei lá por que motivo, odiava, chamávamo-lo e mostrávamos-lhe os dedos indicadores formando uma cruz. Ele, virava uma fera e até atirava pedras. E o Bolinheiro: “-Vai chover, Bolinheiro?” E ele: -“A bê da merda, você também!” Era, desculpe-nos, Chico, Bolinheiro, onde vocês estiverem, brincadeira de gente irresponsável ainda.
No dia 24 de junho, festa de São João. Na memória, quanta coisa. A briga pelo dinheirinho lá no pau-de-sebo, o desfile dos alunos das escolas, os ternos de congo, as batidas dos bumbos dos congos, colorindo de rosa, verde, branco, azul, vermelho as ruas. As fitinhas acompanhando o dançar frenético dos homens e garotos... O rei, com coroa e tudo... Oi, oi, oi, - Oi, oi, oi, rosário de Maria nós vamos festejar. Os fogos, a vareta do rojão... onde vai cair?
A Gradisca, para Fellini, a mulher gostosona, uma cabeleireira, andar sacudindo tudo, por isso era seguida pelos garotos. Gradisca significava “Sirva-se”... Em Atibaia, guardando as devidas proporções – no tamanho e no contexto – víamos também nossas gradiscas... Diálogo típico: “- Fulano, olha, aquela é a segunda bunda de Atibaia” E o ingênuo:” – E quem é a primeira?” E outro: “- É a sua!!”.
Brigas, ah as brigas... Turmas da rua de cima, da rua de baixo... E no futebol. Jogo dentre São João e Tatuí, meio decisão, saiu uma briga entre torcedores são-joanenses e tatuienses. De repente, o gol do São João e a briga sumiu como por milagre.
E os “rachas” no campinho da Prefeitura – ali onde hoje estão as quadras de tênis do São João. Quem usaria o campinho? O Ninha e João Carapiá: ”Não, de tarde o campo é nosso! Nem vem!!” E nós, moleques do colégio e do comércio, engolíamos em seco. Mas as manhãs eram bem aproveitadas.
As brincadeiras à noite: com os pais sentados em cadeira na calçada, mirem, era o pega-pega, com pique, o “quebrar o recorde com a bicicleta saindo da 13 de Maio, 172, chegando ao largo da Matriz, dobrando o hotel Municipal, pegando a rua Direita, descendo a travessa São Benedito, virando a 13 de Maio até o número 172. Quem fazia menor tempo ganhava. Beleza. Também as brincadeirinhas das meninas: “dolidolê, dolidolá, sapatinho verde para nós comprá.” Ver podia. Agora, brincar junto delas, não. Era coisa de mariquinha. Velhos tempos. E fazer as vezes dos cavaleiros da Legião do Zorro. Houvesse cabos de vassouras para os cavalos...
E as tragédias, raras, mas havia. Casos de polícia, na década de 50: o roubo na oficina do Quitá, meu pai; o assassinato da garota Bitu, por um empregado de um parque ou circo que estacionara em Atibaia. Lembro-me de que, na época, e a manchete de um jornal paulistano sensacionalista: “Cadeia de Atibaia: verdadeiro matadouro humano.” Outro crime, dívida de jogo: perdedor, moço de tradicional família atibaiense, matou o adversário.
O Zé Caetano. Na esquina da rua Direita com a praça do Rosário, a garaparia. São-Paulino até morrer. Numa noite, o XV de Novembro de Jaú goleou o São Paulo, 4 a 1, no Pacaembu – ainda não havia o Morumbi. No dia seguinte, fez-se fila para encher o saco do Zé Caetano. Mas quê! Decretou feriado. Portas fechadas.
A vida na escola: aulas no primário, no colégio, na escola de comércio. A fantasia dos quatro cinemas mexendo com nossa imaginação.
A política e o lazer: O Centro Estudantil César Mêmolo, a JEC, o CESUA...
O lado afetivo: os namoros na imaginação e na realidade... E o que vinha depois...
E a música de Nino Rota enfeitando a memória. O assobio. É o Amarcord.
Mas, tempo e espaço exíguos.
Ciao, Fellini!
Leitor, até a próxima
Por João Batista Neto Chamadoira