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“Composição à vista de uma gravura”
Era assim que a D. Aracy Salles, professora do segundo ano do primário nos avisava. E lá punha uma gravura. Fazendo uma revista na memória, recordo-me de um quadro de papelão colorido, com cerca de 1m x 1m. Eram vários cartazes, de modo que a professora podia aplicar o método de aprender a escrever de várias formas. Havia um que mostrava uma chácara, um gramado, um riozinho e uma ponte e, ali, algumas crianças corriam de perigosos gansos a fim de pegá-las. E toca a gente bolar a história, ou tentar descrever o quadro. Já em outra série, creio o terceiro ano, a professora, a exigente D. Marcolina, nos deu a chance de aprendermos a descrição. Foi a primeira e, creio, a única vez, em que algum professor nos orientou a elaborar uma redação. A partir da descrição de uma borboleta, nossa tarefa era descrever uma outra coisa, ou objeto, animal... A professora nos deu um plano de redação. Primeiro falaríamos da forma geral, depois entraríamos nos detalhes: cabeça, corpo, membros... Acho que foi a maior nota que obtive naquele curso primário (hoje Ensino Fundamental – primeiro ciclo), nota 80. Notaça! Mas penei um pouco no quarto ano. Era para criar histórias. Quem não pudesse, que contasse de seu jeito o texto que a professora havia dado. Lembro-me de uma fábula em que a personagem era um inseto, a mutuca, da família dos tabanídeos, que eu, por absoluto desconhecimento, chamei, no texto, de muquita. Mas diga-se, claro que nunca havia ouvido tal nome, bem diferente de mosca, mosquito... Claro, ao ler meu texto, a professora fez os alunos rirem. De mim. Em outra aula, D. Marcolina contou-nos uma história sobre uma maçã que era muito bonita por fora, mas que, por dentro era podre. Bom, aí já entrava aquela história da “moral da história”. E a frase que se referia à moral era a conhecida “Nem tudo que reluz é ouro.” Quem me dera eu tivesse, naquela época, a experiência de anos depois. Contei um caso ocorrido comigo em Santos. Eu estava na praia com meus pais e vi ao longe um barco grande se aproximando do porto. Nele, de longe, eu via escrito “Jabaquara”. Mas, à medida que o barco chegava mais perto, fui vendo que o nome Jabaquara – mais claro para mim, que conhecia o time de futebol de Santos chamado Jabaquara – foi se transformando em Jabatuba. Isso mesmo. Ja-ba-tu-ba. E contei esse caso. A professora deu lá uma notinha 60. Claro, eu, ainda ingênuo não havia, como se diz, abstraído, transferido, a questão abstrata da maçã que bonita por fora podre por dentro, queria dizer: a verdade não está nas aparências. Em suma não saí do concreto. Redação medíocre quanto ao tema. Precisei mesmo chegar ao colégio –não sei em que parte da memória se esconderam as redações que escrevi na época do ginásio (hoje segundo ciclo do Ensino Fundamental) - para escrever com vontade, com ousadia mesmo: conto policial, histórias meio surrealistas e até um texto só composto de diálogos sobre as aporrinhações que minha doce mãe fazia para mim. Essa redação foi selecionada para o jornal da cidade. Como um prêmio. Aí vieram os poemas, inclusive um ousado soneto, vontade de escrever e de fato escrevia um diário... E até no mural do CESUA e no mural do Colégio Major, colocava meus textos. O saudoso Prof. Cármine estimulava-nos na redação. Não dava muita gramática e caprichava na leitura e na Literatura. Era ótimo, apesar da tarefa, até interessante, de fichar um livro de quinze em quinze dias. Até a professora de Inglês (que lindeza, em tudo), D. Ivete, dava redação. Certa vez, após ler trecho do romance THE SUN ALSO RISES, de Ernest Hemingway – naquele tempo tínhamos no colégio, graças a Deus, aulas de Literatura Inglesa – ela nos pediu para fazer uma redação EM INGLÊS. E comecei assim: “The Sun also rises, but does the sun rise for everybody? (…”) E ela: “João, are you a comunist? Mas o mais interessante é que, ainda aluno de Letras na famosa Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, lá na rua Maria Antônia, comecei o trabalho de professor, na Vila Nova Cachoeirinha. Tinha enormes conflitos sobre como ensinar redação. Não iria nunca ter coragem de repetir as muitas aulas de redação que tive. Não dava para mandar os alunos escreverem sobre determinado assunto ou título e ficar lendo jornal na sala de aula, como era meio costume. Tinha que haver uma metodologia. E aí veio o estágio no Colégio de Aplicação da USP, ainda então no Colégio Fidelino de Figueiredo, lá perto das Perdizes. E assisti a umas trinta aulas com a Profa. Teresa Fraga Rocco, hoje doutora em Redação. Depois de um tempo, teria que ministrar uma aula. E adivinhem o conteúdo da aula que a mim coube? Claro. Aula de Redação. O tema era retirado de um texto e abordava – já naquela época, 1968 - a questão da violência. Era a Televisão responsável pela violência? Como trabalhar com a questão da violência? Imaginem, era um classe de quinta série. Pode? Teria que motivar os alunos a partir de textos, perguntas, discussões, a escreverem um texto dissertativo. Quinta série!!! Bom, naquela época, naquela época... Lógico, colégio estadual daquele tempo “era de elite”. Como se eu fosse elite!... Agora, o Colégio de Aplicação era mesmo muito bom. Como ensinar a redação sobre o tema “Violência”? Os jornais de 1968 falavam de um tal de Caryl Chessman, criminoso norte-americano condenado a morrer na cadeira elétrica e que lutava para evitar o cumprimento da pena. Levei texto de jornal, fotografias. A classe pegou fogo, todos queriam falar. Causas da violência, problemas de educação, ausência de pais, separação de pais... Quando pedi aos alunos que fizessem a redação, eu via nos olhos deles, o brilho de uma vontade de expor ideias, de mostrar as causas da violência, de que Caryl Chessman tinha sido vítima da sociedade, que a pena de morte era errada...
Aulas de redação, estágios, vontade de escrever, docência em escola boa, um cadinho com tantas experiências me levaram a lecionar redação de todos os tipos. Para todos os fins. Elaborar, sem falsa modéstia, minha dissertação de mestrado sobre pontuação em redações de alunos de sexta série, e com minha aulas de redação técnica da Escola Técnica Federal de São Paulo (hoje Instituto Federal de Educação e Tecnologia), minha tese de doutorado. E até há pouco tempo ainda minhas aulas de Técnica de Jornalismo Impresso e Radiojornalismo na Unesp... E as aulas particulares e orientação de redação de agora. Além, claro, das mal traçadas linhas que escrevi, durante certo tempo, no jornal O ATIBAIENSE e, hoje, a coluna do BOM DIA BAURU e no jornal online Atibaia News. E, de vez em quando, busco na memória o tempo em que escrever era obrigação. E, que por qualquer destino traçado por Deus e a vida, se transformou num prazer.
E a vida segue. Hoje, com duas aposentadorias, por tempo de serviço e pela chamada “expulsória” pelos setenta anos, leio, escrevo. E lembro-me – não dá para me esquecer - das origens da minha escrita. Ah! A memória... E parafraseando Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira:
“(................................................)
E amarga que nem jiló
Mas ninguém pode dizer
Que me viu triste a chorar.
Saudade, meu remédio é ‘escrever.”
E, como ninguém é de ferro, salve o Corinthians!
Espaço pouco, tempo exíguo. Até a próxima.