Outro dia, escrevi sobre quem tem “um problema”. Antes de um “especial para o Dia da Mulher”. Dessa vez, vou voltar a escrever prá quem tem problema. No outro artigo disse que as pessoas não devem comparar a sua intimidade com o lado público que as pessoas apresentam, porque a fachada dos outros é só aquilo que a pessoa quer mostrar, que é bonito ou dentro das normas. O lado aceitável. Mas, que todos têm um lado escuro da Lua. Uma coleção de coisas e problemas que não são nem bonitas e nem muito aceitáveis, mas que todos têm. E falei que é muito errado – um suicídio da auto-estima – comparar um com o outro: o público-censurado dos outros, com o nosso íntimo. Ou seja: nunca pense que a vida das pessoas é aquilo que parece!
Aliás, a esse respeito tem um história ótima de um escrito muito bom e popular nas décadas de 40 e 50 (infelizmente hoje esquecido), Somerset Maugham. Reza a lenda que ele foi procurado por uma fã na sua cabine do navio e essa, entusiasmada, teria apertado as mãos do escritor, dizendo que era uma honra poder segurar em mãos que haviam construído obras tão belas. Ao que ele teria respondido: “ah, minha senhora, se soubesse o que mais essas mãos andaram fazendo...”
Mas, esse um o resumo da minha outra prosa. Falo isso porque quero continuar. Tem mais uma coisa muito importante que as pessoas que têm problemas precisam saber: no nosso mundo maluco, quem tem um problema é um privilegiado. Pode parecer estranho, dito assim. Mas, pense bem: o “normal” é uma pessoa o que? Que tem família certinha, não perde a hora, cumpre todas as obrigações, gosta de música do momento, se veste de uma maneira que todos aprovam, faz uma faculdade “certa”, ganha dinheiro “suficiente” para ter todas as novidades tecnológicas e os carros do ano, tem passatempos razoáveis, se distrai convenientemente, viaja aos lugares que são fashion... Enfim, o “normal” é um “falecido”, que talvez nunca tenha realmente nascido. Não há, em tudo isso, qualquer sinal de vida inteligente ou mesmo de vida, só. Um gosto pessoal, uma diferença... algo que marque, mais personalizado um pouco. Se nem as nossas impressões digitais são iguais, porque nossas vidas, roupas e objetos e hábitos e viagens têm que ser?
Nesse nosso mundo, alguém que tem problemas, dificuldades, é alguém que demonstra uma certa sensibilidade. E quem tem sensibilidade é porque escapou da linha de fabricação de gente em série. Conservou ainda uma certa humanidade. Não virou zumbi ou robô.
Saint-Exupéry, autor do “O Pequeno Príncipe”, viajava em um trem e viu, no colo de duas criaturas duras e judiadas, um pequeno ser de luz, uma criança, um futuro Mozart, ele fantasiava. Mas, depois, se entristeceu, dizendo haver uma estranha máquina de entortar homens, que transformaria aquela promessa de maravilhas em mais uma criatura dura e insensível.
Quem tem problemas de ajustamento, de se entrosar com as coisas do mundo, dificuldades, enfim, é porque não se ajusta ao meio. Ora, há meios em que é melhor não se ajustar mesmo! Imagine se a gente mora num favelão bem barra pesada. Se ajustar ao meio seria se tornar violento e aprender a tolerar coisas intoleráveis. Os desajustados desse morro talvez sejam bem mais normais do que os ajustados.
Enfim, conseguimos criar um mundo tão maluco que é melhor ter problemas, porque quer dizer que ainda estamos vivos e estamos tentando dar um jeito aceitável de ser o que se é, sem se perder.
Se você tem problemas, se orgulhe disso. Elas são a chave para uma vida de verdade, plena, com acertos, erros, sorrisos, lágrimas, vitórias, derrotas, ganhos, perdas... Não confundo ser normal ou ter problemas com ter uma vida fácil. A vida nunca será fácil. Estaremos sempre diante de tarefas imensas. Folga e sossego não querem dizer normalidade. Mas, também não quer dizer conformismo, não quer dizer ausência de opções próprias. Normalidade quer dizer uma vida viva, uma vida de coisas pessoais, muito pessoais, nosso estilo, nossa cara. E é claro que aí, vamos bater de frente com um mundo extremamente normático como o nosso. Por outro lado, nessa difícil tarefa de não se perder, é preciso muito bom senso para separar o que é mesmo de nossa natureza e que merece expressão do que é expressão de uma exigência infantil, que não aceita um “não” como resposta. Quando devemos aceitar e nos modelar e quando devemos negar e recusar a Máquina. Um jogo perigoso. Você pode aceitar o desafio e o risco desse jogo... ou se conformar com a poltrona da sala e uma fama de pessoa muito “sensata”.
João Paulo Correia Lima
Psicólogo clínico – diretor da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática
Mestre em Neurociências – USP – membro do grupo de Neuroimunomodulação - USP
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