Com este artigo, vamos iniciar uma pequena série sobre cirurgia plástica. Os motivos são óbvios: os avanços da técnica e a procura subseqüente fizeram com que esse recurso esteja muito mais acessível à população em geral do que há pouco tempo atrás. O que antes era privilégio de artistas e gente famosa, hoje é disponível a todos. Essa facilidade trouxe uma série de conseqüências, entre as quais penso que a mais importante foi uma somatória de “tentação” com pressão social. De um lado, a cirurgia, apresentando-se como uma solução “fácil” para “aquele” velho problema: o lado “tentação”... o FÁCIL, atraindo. Tem na esquina, é bom e barato! É como se falasse: “vai láááá...!” Por outro lado, como é assim, há um grande número de pessoas se submetendo a esse tipo de procedimento. Ficou quase que um recurso cosmético. Aí, aparece a pressão social: “mas... todos estão fazendo! E eu...?”
Essa combinação de fatores faz com que as pessoas se sintam altamente inclinadas a “fazer uma...” Ou duas. Mas, junto com isso vem uma grande discussão sobre o valor e necessidade da plástica. As opiniões se dividem. Uns acusam, outros, defendem. E as pessoas acabam ficando meio confusas sobre o que pensar e como se posicionar e em dúvida sobre se devem ou não recorrer a ela: para se decidir se querem ou não, se é bom ou não.
Como tudo o que vira assunto polêmico, começa a aparecer tudo quanto é bobagem e opinião. Aí, noto uma grande falta de informação técnica confiável, sobre os procedimentos, riscos e resultados. Aí, começa a aparecer o folclore, como o caso que circulou um tempo atrás da modelo famosa que teria tido as próteses de seio estouradas em um vôo de avião por diferença de pressão. E os comentários dos maldosos de plantão sobre como a situação teria sido embaraçosa... De onde se tira o primeiríssimo conselho para quem pensa que uma plástica poderia ajudar, de algum modo: vá a um médico de confiança e pergunte tudo! Mas, pergunte mesmo. Quem gosta do que faz, gosta de falar sobre o que faz. Não incomoda. É um prazer. Não dê trela prá conversa de comadre. Ou compadre. Pergunte a quem faz.
Segundo ponto, onde a discussão começa a ficar realmente interessante: os procedimentos de cirurgia plástica são divididos em restauradores e estéticos. O nosso grande e conhecido Ivo Pitangy nos ensina que a cirurgia reparadora recupera a função e restaura a forma e a estética, melhora a forma. Mas, também nos chama a atenção para que esses conceitos são complementares, não distintos. Só que na voz e cabeça do povo, a reparadora é “aceitável” e a estética é “bobagem”, “coisa de madame...” Até mesmo para alguns convênios médicos, que cobrem a reparadora e não a estética.
Mas, é aí mesmo, nessa diferença que vamos encontrar a chave para entender o assunto e encontrar as pistas para formar nossa própria opinião ou mesmo tomar alguma decisão.
Há alguns dias vi em São Paulo, na rua, uma mulher que não tinha o lábio superior e grande parte do nariz. Ninguém duvidaria que seria o caso de uma cirurgia reparadora. Agora, imagine uma pessoa com as orelhas muito grandes. Cirurgia reparadora. Agora, imagine orelhas não tão grandes... aí a coisa começa a ficar confusa. Quanto deveria medir uma orelha para a cirurgia ser reparadora e não estética? Dá prá notar que o assunto é complicado. Mas, o importante é que sempre, em qualquer caso, o ponto mais importante é que avaliamos em termos de “bonito e feio”. É sempre uma questão de estética.
Essa é a chave: o ser humano é uma criatura estética. A preocupação com a beleza está em tudo: carros, roupas, escova de dentes, caixa de sabão em pó... Não há nada que não tenha uma dose de beleza e que alguém não olhe e não diga “que feio” ou “que bonito”. Seja para o por do sol, seja prá menina que faz o que não deve, seja o mecânico que olha para as suas ferramentas...
É assim, então, que devemos pensar sobre a questão da cirurgia plástica, não é uma questão de precisar ou não. É sempre uma questão de beleza. E pensar sobre isso nos faz pensar no papel que a beleza tem prá gente. Nos faz pensar que a beleza está em todo lugar. Você não vai achar um barraco na favela que não tenha um enfeitinho. Não vai achar um escritório que seja “apenas” funcional. Porque seria diferente com o nosso corpo? Aí, é que convidamos os leitores a pensar... O resto, fica para os próximos capítulos.
João Paulo Correia Lima
Psicólogo clínico – diretor da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática
Mestre em Neurociências – USP – membro do grupo de Neuroimunomodulação - USP
7467-1141 - e-mail jpcorreialima@gmail.com