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“Meu Corpo Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem”. Esse é o nome do primeiro disco gravado por Ednardo, que já trazia em seu DNA a parceria que seria formada com Belchior, Amelinha e Raimundo Fagner, uma geração brilhante de cantores e compositores que viria a ser conhecida como “Pessoal do Ceará”.
O norte e nordeste brasileiro - tão místicos no imaginário nacional de quem não conhece pessoalmente sua mistura de ritmos, cores, sons e temperos - ganharam vida na trajetória coletiva ou individual de músicos talentosos que reuniam letras potentes e ritmos que migravam como retirantes entre a toada e o country-rock, o maracatu e o xaxado, o sertanejo e a harmonia praiana.
Os cearenses Amelinha, Belchior, Ednardo e Fagner fazem parte de um grupo muito peculiar de artistas brasileiros. Revelados no início da década de 70, atingiram sucessos esporádicos, muitas vezes nas vozes de outros artistas. Viveram à sombra do glamour de compositores baianos consagrados, como Gil e Caetano, e não atingiram uma maturidade de público e reconhecimento como Zé Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Elba Ramalho.
A trajetória interessante e conturbada do “Pessoal do Ceará” é na realidade uma coletânea de histórias musicadas sobre as diferenças latentes entre sul e norte, sobre a visão quase emblemática do retirante, sobre o sonho da vida melhor na cidade grande e também sobre a exuberância das paisagens nordestinas.
O álbum “Alucinação” de Belchior traz um apanhado de canções memoráveis, composições cheias de talento, que parecem mais uma prosa que um verso. “Á Palo Seco”, “Apenas um Rapaz Latino Americano”, “Retrato 3X4” e “ Alucinação” são canções que chegam a dar um nó na garganta, cantadas em um timbre emocionado e vacilante. O retirante urbano que sai do norte para as capitais do sul nunca pareceu tão vulnerável. A interpretação inspirada de Elis Regina para a composição “Como Nossos Pais” também distinguiu durante certo período o nome de Belchior, mas o sucesso na carreira do cearense foi passageiro.
Raimundo Fagner traz em sua longa carreira músicas e composições de grande lirismo imagético, cenas de amor musicadas e quase abstratas mescladas com a paisagem de um sertão semi-árido que transparece em suas toadas. “Sangue e Pudins”, “Canteiros” e “Cavalo Ferro” são quase incompreensíveis em suas metáforas enquanto Mucuripe, em parceria com Belchior, parece a descrição literal de uma cena. Fagner caiu vítima de sucessos comerciais que não fazem jus ao seu trabalho brilhante, e ficou marcado por “hits” involuntários como “Borbulhas de Amor” e “Revelação”, ambas composições de outros autores.
Amelinha esteve sempre “escondida” atrás do astro maior Zé Ramalho, com quem foi casada. Conseguiu certo reconhecimento como interprete e colaborou em diversas composições em parceria com a grande maioria dos nomes da cena musical que surgia no nordeste. Gravou entre outros grandes sucessos Frevo Mulher( Zé Ramalho), Dia Branco(Geraldo Azevedo), Depende(Fagner e Abel Silva), Ponta de Espinho(Ednardo).
Para encerrar, talvez o menos conhecido e mais subestimado nome do “Pessoal do Ceará” seja o do músico e letrista José Ednardo Soares Costa Sousa, o Ednardo.
Autor de mais de 350 letras, fez um sucesso modesto ao compor “Pavão Mysterioso”, tema da novela “Saramandaia”.
Dono de um estilo peculiar Ednardo tem ainda músicas como “Terral”, “Ingazeiras” e “Enquanto Engoma a Calça”, “Beira Mar” e “Flora”. Uma pena permanecer quase anônimo.
No Brasil sempre fica a impressão de existirem dois nordestes: aquele assolado pela fome, pela seca e pela miséria, aonde retirantes saem somente com o peso de seus corpos para caírem sem destino no sul em busca de uma vida melhor; e aquele outro da cultura multicolorida, das dunas paradisíacas, das praias cheias de beleza, das comidas temperadas e do calor humano. Talvez o grande diferencial do “Pessoal do Ceará” seja não fechar os olhos para nenhuma dessas realidades, um trabalho diferenciado de cantores, artistas e poetas que não se omitiram pelo sucesso e muitas vezes cantaram coisas que nem sempre gostaríamos de ouvir. Antes de tudo sertanejos, antes de tudo fortes.
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Por Armando Teixeira Junior