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18/09/2009 - 12:30
Del Potro contra o Interminável Tango Argentino

Nas últimas semanas a rivalidade mais acirrada da América tem proporcionado ótimos momentos para nós brasileiros e dores de cabeça inimagináveis para nossos “hermanos” argentinos.

O lugar comum mais visitado na recente ressaca de nossos vizinhos não poderia deixar de ser o tango. Cansei de ver comentaristas, analistas, manchetes, linhas finas, textos e artigos se reinventarem para utilizar o tango como referência a:

· A derrota da temível seleção Argentina de basquete na Copa América. Sem Ginobbili, mas com Scolla em quadra, o desempenho da melhor seleção dos últimos anos da América Latina ficou devendo e após perder uma partida para o Brasil, caiu nas semi-finais contra Porto Rico ficando com um bronze nada satisfatório. Na final o Brasil levantou o caneco do campeonato. Resultado ? Samba para nós, tango para eles.

· A situação vergonhosa da seleção Argentina de futebol que após uma série de jogos irreconhecíveis nas eliminatórias para a Copa do Mundo, corre o risco de perder sua vaga. Mesmo com uma geração talentosa liderada por Messi, está brigando com Equador, Colômbia, Uruguai e até Venezuela para garantir uma vaguinha na África do Sul em 2010. Os integrados dizem que a classificação virá, mesmo que na repescagem, os apocalípticos já preparam um tango.

· Enquanto Dunga comemora com três rodadas de antecedência a classificação do Brasil, Maradona, o ex-maior craque de seu país, é um arremedo do símbolo que foi e organiza sua esquadra como se fosse um amontoado de jogadores sem nenhum preparo tático em campo. Apoiado integralmente pela AFA (Federação Argentina de Futebol) não para de tropeçar nos próprios pés dentro e fora de campo. Até a seita maradoniana está perdendo a fé. Hinos de louvor ? Não Tango.

· Na esquadra política o governo da Argentina está prestes a aprovar um dos maiores retrocessos do continente contra a liberdade individual. A televisão, o rádio e a imprensa escrita sofrerão censura de seus conteúdos que terão que ser aprovados antes de veiculados. Um absurdo que garantirá ao casal Kirschner poderes quase ditatoriais sobre os veículos de comunicação. Nós aqui com um sorriso amarelo de “pois eh” sugerimos um tango no jukebox mais próximo.

Não parece, mas ao assunto primordial do texto desta semana não é só a Argentina, mas o tango. Não existe um ritmos mais imagético, sincopado de dores e sentidos que um tango.

Um estilo musical e uma dança que surgiu entre Montevidéu no Uruguai e Buenos Aires na Argentina, mas que certamente nasceu a noite, em um ambiente esfumaçado nos cabarés das duas últimas décadas do século XIX.

Eternizado na Argentina, foi nacionalizado pelos nossos hermanos como patrimônio de direito, por vozes como a de Carlos Gardel, Ignácio Corsini e Augustín Malgaldi.

O ritmo se tornou popular em toda a América; chegando à Europa se tornou febre em Paris, levada por marinheiros que se impressionaram com o ritmo suspirante e cheio de lamentos, com a dança romântica, mas carregada de energia sexual.

Na voz de Gardel, seu maior expoente, foi parar nas telas do cinema em produções nos Estados Unidos para a Paramount Studios. Em 1930 o filme “Encuadre de Canciones” entrou para a história como o primeiro filme falado da América do Sul.

Hoje o ritmo é mais um lugar comum que um elemento musical, sendo muito mais revisitado como dança do que como canção. Os últimos grandes expoentes do tango ficaram em uma já arcaica década de 40 e infelizmente muitos conhecem mais a palavra que o gênero musical. Tornaram a música um adjetivo.

Sinônimo comum de derrota, ressaca, abandono e amor terminado o “Tango” em minha visão é muito mais que isso. É o anti-clímax que antecede a revolução, é o momento chave que brinda a noite com as reflexões mais necessárias, é a insurreição através da dor.

A “gana” e o popular “espírito argentino” tão transpassado para bordões esportivos vem na realidade de um passado revolucionário, de conflitos políticos e agitação civil contra a repressão. O esporte é sem dúvida genial, em um país com um número de habitantes bem menor que o do Brasil, em uma situação econômica bem menos estável, em plena crise política a Argentina ainda consegue produzir gênios como Messi, Ginobbili e Scolla.

Quanto à censura deliberada que o governo tentará impor aos meios de comunicação, algo me diz que a população não aceitará calada.
O tango é sim propício meus caros, e se prestarmos atenção veremos que ele não fala de derrota, mas da ânsia reprimida de vitória, ideal para esta semana que o “espírito argentino” ganhou projeções mundiais.

Juan Martin Del Potro bateu o então invencível Roger Federer nas quadras do Complexo de Flushing Meadows no U.S Open de tênis deste ano. Destruindo com direitas potentes e muita catimba o jogo do suíço, Del Potro virou a partida de forma inesperada e ganhou o público do Arthur Ashe Stadium com sua vibração. Após mais de 4 horas, em uma partida de superação finalmente a Argentina voltou a sorrir.

Quebrando uma série de 40 partidas invictas do adversário, um argentino de apenas 20 anos levou para Buenos Aires US$ 1,9 milhões de dólares de premiação, mas na bagagem trouxe muito mais que isso. Del Potro calou as vozes que entoavam um interminável “tango” verborrágico que nada tinha a ver com o real significado da música.

O povo argentino recebeu o tenista como um herói nacional, sorriu de orgulho novamente e venceu a “ressaca”, pelo menos por enquanto.

Tango é isso, não apenas o choro, mas o contraste com o riso que certamente virá. E aposto que teremos que ouvir calados:

Qual brasileiro vencerá Del Potro ?

Mais material do autor em www.filtrodigital.blogspot.com

Por Armando Teixeira Junior
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