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25/09/2009 - 10:04
O Romance que Matou John Lennon.

A obra máxima de J.D. Salinger, um dos romances mais inovadores da literatura da década de 50, e apontado por muitos como o precursor da “cultura-jovem”, traz em sua história o difícil fardo de estar no lugar errado na hora errada.

Quando Mark Chapman se aproximou do edifício Dakota, em Nova York, na noite do dia 8 de dezembro de 1980 e desferiu 5 tiros contra o músico John Lennon, ele não só assassinou um dos maiores ícones da música de todos os tempos mas também mudou os cursos da literatura ao estigmatizar para sempre o livro “O Apanhador no Campo de Centeio”.

Chapman ficou parado com o livro nas mãos após cometer o crime e afirmou que todos os motivos que justificaram sua atitude podiam ser encontrados nas páginas da obra.

Logo, surgiram uma série de teorias da conspiração envolvendo a CIA, grupos secretos e caçadores de mensagens criptografadas que contribuíram para popularizar “O Apanhador...” de forma errônea, descaracterizando toda a mensagem e colocando na capa da obra uma série de rótulos inexistentes.
Uma pena.

O romance na realidade é uma exortação pura e simples a juventude, à rebeldia adolescente quase banal exteriorizada em atos ingênuos da fase mais inconstante de nossas vidas.

A história é a narrativa em primeira pessoa de Holden Caufield, um adolescente de 16 anos, expulso diversas vezes do colégio, que decide “fugir” com algum dinheiro no bolso e perambular por Nova York antes de voltar para casa e explicar aos pais que mais uma vez foi reprovado em quase todas as matérias.

As maiores qualidades do livro estão exatamente na simplicidade e na forma original com que foi escrito. A narrativa é “cuspida” por Caufield de forma intimista e com uma linguagem coloquial cheia de expressões orais e gírias, o que aproxima o leitor não só do universo do protagonista, mas também de suas emoções. O efeito da linha narrativa é uma transposição do fluxo de consciência da personagem direto ao leitor, que acompanha, como de um divã à prova de mentiras, as crises emocionais da adolescência pelas quais todos passam um dia.
Caufield é sem dúvida encantador; covarde, desleixado, reclamão e assumidamente preguiçoso. Um anti-herói ranzinza e cheio de inconstâncias, pronto a rotular tudo e todos com o maior número de defeitos possível, inclusive a si mesmo.

Nas pequenas incursões que faz ao universo adulto das noites de Nova York a maior parte dos disparates e rompantes se parece muito com coisas banais que todos fizemos na juventude.

Bebedeiras, ir ao teatro com a antiga namorada, conversar com estranhos pelas esquinas, se hospedar em hotéis baratos, perambular sem dinheiro pelas ruas e analisar tudo e todos com a máxima amargura possível. Essa trajetória banal de Caufield ganha ares de odisséia por ser justamente “as grandes aventuras” que todos temos para contar.

Mas o detalhe que acaba por garantir ao livro a sobrevida entre seus admiradores é a humanidade que transparece em sua narrativa. Como em 99% dos romances, Caulfield não seria um protagonista se não tivesse um bom coração, um pequeno charme terno que garante a empatia do leitor e eterniza uma personagem.

O adolescente tem como ponto fraco sua família. D.B, O irmão mais velho que admira, é um escritor talentoso, e rotulado por ele, carinhosamente, de “prostituto” por escrever para Hollywood, simboliza a referência masculina familiar mais evidente na vida da personagem. A sensação de perda é tratada brevemente com uma emocionada citação a luva de beisebol de seu irmão Ellie, que morreu de leucemia. A figura mais poderosa e imagética neste contexto familiar é a “irmãnzinha” menor, Phoebe, que representa para ele a pureza de sentimentos em estado bruto gerando um instinto superprotetor comum à figura de irmão mais velho. Como em toda crise adolescente a família está lá em seu imutável papel de fim da linha.

Para se ter uma breve idéia da importância da obra para a cultura jovem basta saber que antes dela não existia um referencial registrado para o estereótipo de jovem adolescente rebelde em crise. Sabe James Dean em “Juventude Transviada” ? Não existia antes de “O Apanhador no Campo de Centeio”.

O livro é íntimo e revelador, carinhoso com nossos sentimentos bons e cúmplice de nossos piores pensamentos.

Seu autor, avesso a qualquer tipo de contato social, é uma das maiores incógnitas do meio literário e pouco disse desde o lançamento da obra como livro em 1951.

Com tantas nuances dignas de serem citadas, a história não perdoa e o livro entrou para a posteridade como aquele que estava no bolso do assassino de John Lennon.

Os cinco tiros de Mark Chapman mataram mais do que podemos imaginar.

Mais material do autor em www.filtrodigital.blogspot.com

Por Armando Teixeira Junior
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