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“Se as pessoas realmente acreditassem no que eu faço no palco, elas não aplaudiriam, elas gritariam. Pense em serrar uma mulher ao meio...” Esse é apenas um dos diálogos de “O Grande Truque”, um dos mais belos filmes já realizados sobre a arte do entretenimento fantástico.
A premissa de qualquer show de mágica consiste sempre em três atos, o ordinário, o extraordinário e o retorno ao real. E essa fórmula repetida à exaustão através dos tempos ainda encanta qualquer público ou platéia. O fato comprovado com o sucesso do longa dirigido com maestria pelo diretor Christopher Nolan em 2006, voltou de forma inesperada para roubar as atenções da mídia no mais aclamado espetáculo popular nacional do mês de fevereiro.
Vi com grande surpresa no último final de semana algo que não esperava ver tão cedo na avenida. Uma apresentação de gala na apoteose, filmada em diversos ângulos por câmeras que claramente desconheciam o conceito de palco italiano quase obrigatório para qualquer show de mágicas.
Longe de ser um grande entusiasta do carnaval, acho desestimulante acompanhar através da televisão os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo que perdem muito da sua grandiosidade e objetivo quando cerceadas pelas câmeras da emissora detentora dos direitos de imagem que repetem há anos a fórmula de buscar os “destaques” das escolas nos corpos femininos (semi?) nus na avenida.
Neste ano por coincidência ou predestinação acabei perdendo o sono e ligando a televisão no exato momento em que a escola “Unidos da Tijuca” iniciava seu desfile.
Não tive dúvida desde o primeiro momento que não se tratava de uma apresentação qualquer. O carnavalesco Paulo Barros conhecido pela sua ousadia e inovação amargava dois vice-campeonatos e trazia para este ano um enredo baseado nos segredos.
Na comissão de frente bailarinos executavam diante de um palco trocas de roupas instantâneas em plena passarela enquanto se moviam de forma coreografada como tudo fosse uma grande brincadeira. Todo o desfile foi charmoso e diferente. Criativo, envolvente e cheio de pequenos segredos que apoiados no grande espetáculo proporcionado pelo ato inicial de sua comissão de frente consagraram a “Unidos da Tijuca” como a grande campeã deste ano.
Palmas para Paulo Barros que sem cartola ou varinha, incendiou a Biblioteca de Alexandria, apresentou os Jardins Suspensos da Babilônia com plantas naturais, fez o Batman “esquiar” em uma plataforma móvel e ainda tirou um sarro/homenagem com o falecido ídolo pop Michael Jackson ao trazer um sósia dançando moonwalker em uma alegoria sobre a Àrea 51.
Para aqueles que imaginam que não existe nenhuma semelhança entre o filme sombrio de Nolan e o desfile fantástico de Barros, eu sugiro um olhar mais atento.
As engenharias e engrenagens dos palcos e das alegorias estão todos lá colaborando para o andamento preciso das obras. As musas? Adriane Galisteu e Scarlet Johanson fazem um papel fundamental “distraindo” o público. Os figurinos escolhidos com o máximo rigor dão veracidade a mesnagem que será transmitida. A trilha sonora regida por uma bateria bem ensaiada ou orquestrada por um compositor dedicado, fica o tempo todo ao fundo, onipresente. A comissão de frente cartão postal da escola de samba e os protagonistas Christian Baile e Hugh Jackman dão boas vindas à platéia e garantem o entusiasmo com que o show será acompanhado.
Não é fácil levar aos cinemas um filme complexo e instigante como “O Grande Truque”, nem tampouco inovar em uma das festas mais populares e tradicionais do Brasil e se sagrar campeão.
Duas palavras selam a ligação entre as duas obras: Segredo e Apoteose.
O segredo fonte da obsessão dos mágicos, garantia do truque perfeito que encanta as platéias; enredo da Tijuca este ano. Apoteose, sinônimo de carnaval no Brasil por causa do local aonde são realizados os desfiles, a palavra significa na realidade a elevação do homem ao status de divindade, flerte de diretores que criam e moldam a realidade no cinema ou nos desfiles das escolas de samba. Barros e Nolan.
Seja no limiar realista e sombrio de “O Grande Truque” ou no desfile criativo e colorido da “Unidos da Tijuca” o que fica após contemplarmos o espetáculo é o fascínio pelo segredo e o desdém pelo truque revelado.
No fundo todos somos crianças esperando o coelho na cartola.
Por Armando Teixeira Junior