|

Cuidado: Os trechos a seguir possuem informações sobre o último episódio da série “Lost”.
Pois é amigos, chegaram ao final, após seis anos, as aventuras dos passageiros do vôo 416 da Oceanic que despencaram na ilha mais misteriosa da televisão. A emissora ABC fez um estardalhaço gigantesco para promover o “season finale” de “Lost” que foi ao ar no domingo dia 23.
Ao todo foram quase cinco horas ininterruptas de programação, com apresentações de entrevistas com o elenco, trechos que resumiam os seis anos da série e making offs; para enfim ir ao ar o episódio “The End”, com mais de duas horas de duração e que prometia dar um rumo e explicar de forma satisfatória o que raios estava acontecendo na ilha – e também fora dela, em uma realidade paralela.
Como o ser humano geralmente acredita na boa índole de seus iguais, eu e mais alguns milhões que assistem a série pelo mundo esperamos até o último episódio pacientemente para só depois cobrar algo dos produtores, Damon Lindelof e Carlton Cuse, que juraram de pés juntos em entrevistas nos últimos meses que o final explicaria muitas coisas, não todas, mas que o encerramento de “Lost” seria enfim um desfecho, com conclusões para todas as personagens e um bom número de respostas.
Bem chegou a hora de cobrar.
E para não dizer que a crítica é meramente destrutiva vou ilustrar este espaço com um exemplo de narrativa perfeita envolvendo mistério, reviravoltas e um final surpreendente.
Em 1999 o filme “O Sexto Sentido” deu uma aula de suspense e se consagrou com público e crítica ao mostrar de forma envolvente a história do psicólogo Malcolm Crowe (Bruce Willis) e do garoto Cole Shear (Haley J. Osment) em momentos que entraram para a história do cinema. A cena da frase : “Eu vejo gente morta”, que no filme causa calafrios, ficou tão famosa que gerou paródias e repetições sucessivas que tornaram o filme um ícone moderno do suspense.
A chave do sucesso do longa é o seu final: a surpreendente seqüência que explica em flash-backs o que está acontecendo é uma aula de ilusionismo que mostra em detalhes o que esteve diante do público o tempo todo e foi escondido.
O domínio de narrativa do diretor M. Night Shayamalan é soberba e em pouco mais de 10 minutos quem assiste ao filme pela primeira vez percebe que todo o resto faz sentido.
Uma experiência cinematográfica ousada e inesquecível, eternizada pela competência da construção de sua narrativa.
Com “Lost” sinceramente esperava que seria assim, mas...
Depois de dezesseis episódios que choveram no molhado, e explicaram muito pouco na sexta temporada, o décimo sétimo fez igualzinho.
Deu vontade de chamar os produtores de canto e perguntar:
- Vocês não têm vergonha? Vocês não disseram que desde o começo sabiam o que estavam fazendo?
Senti-me tão decepcionado com a canalhice das (não) respostas oferecidas que imaginei estar falando de política tamanho o número de mentiras e verdades parciais sem nenhuma base que foram atiradas no vídeo em mais de 120 minutos de picaretagem explícita.
Pior que vai ter gente defendendo! Tem fã que é cego, paciência...
O final foi bonitinho cheio de sorrisos fraternos em uma sala branca, que a maioria diz ser o céu, o paraíso, ou o contraponto da ilha que seria o inferno, o purgatório ou sei lá o quê.
Tudo muito vago, sem nada definitivo, você decide o que entender e provavelmente você estará certo. Acho que nove milhões de teorias se encaixam ao final da série que, certamente, deixou muitos dos fãs com um sorriso bobalhão no rosto dizendo:
- Eu não disse?
Não sei se estavam todos mortos, todos vivos, e sinceramente? Já não importa mais, porque “O que aconteceu, aconteceu”. Simples neh? E não venham me falar que a conversa final entre Jack e o pai explica alguma coisa porque assisti mais de dez vezes e nada ficou claro...
Com certeza tem algum produtor executivo rindo agora com milhões de pessoas debatendo em fóruns e comunidades na Internet o “não-final” de “Lost”. Todos cheios de teorias, cheios de dúvidas e de meias certezas – exatamente como há seis anos atrás.
Depois de seis temporadas, sendo as duas primeiras espetaculares, esperava objetividade e não um final cheio de pontas soltas; azar da história de J.J. Abrahms que podia ter sido “O Sexto Sentido” das séries e não foi.
Por Armando Teixeira Junior