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Cansado de ler aqui e ali sobre nomes que nunca tinha ouvido cantar decidi dedicar algumas horas de meu tempo a audição de alguns talentos promissores da MPB. Particularmente o que me chamou atenção foi a nova geração feminina que tem despertado elogios rasgados tanto em território nacional quanto em turnês pela Europa e pelos Estados Unidos.
Muitos nomes soaram estranhamente familiares e decidi iniciar as sessões com a seguinte escalação:
Vanessa da Mata
Céu
Verônica Sabino
Ana Cañas
Posteriormente somei ao grupo a cantora Tiê por indicação de um amigo.
Iniciei a audição nesta ordem, comecei por Vanessa da Mata, pois tinha lido uma ótima matéria na revista Rolling Stones e fiquei curioso.
Durante as próximas semanas estarei utilizando este espaço para revelar o prisma de cores e harmonias que percebi durante essa jornada musical - muito bem acompanhada diga-se de passagem.
Esta semana Céu.
Céu - Céu/Vagarosa

Quando iniciei a audição de Céu com a trinca “Cangote”, “Comadi” e “Nascente” admito que fiquei irritado e quase pulei para a cantora seguinte.
Sua voz era muito afinada - mas não me pareceu particularmente um destaque. O que me causou um grande desconforto foram os arranjos instrumentais e os overdubs, algumas influências confusas de sons, de vozes duplicadas, de elementos jazzísticos somados a efeitos eletrônicos improváveis. - Não é MPB !- cheguei a sentenciar em certo ponto.
O conceito de “música popular brasileira” não podia ser aplicado ao som deturpado cheio de elementos estrangeiros e sonoridades que hora me lembravam a sofisticação de um bar Nova Yorkino, hora o charme esfumaçado da noite parisiense.
Depois que passei desse primeiro estágio da audição comecei a ser mais complacente com a voz da bela Céu.
Encontrei sobre as camadas exageradas de sons e instrumentos uma entrega interessante de conteúdo. Com um pouco de boa vontade, e sem ligar o som ao rótulo de MPB da embalagem, podemos ver as experimentações de Céu como algo inovador, próximo de um acid jazz ou de um “MPB progressivo” se é que isso é possível. Tirando os sintetizadores e os metais desnecessários a voz de Céu emociona pela palidez e chega a sumir em algumas canções; quase rouca a performance atinge em bons momentos algo nacional muito semelhante a requintadas intérpretes internacionais.
Não pude deixar de notar uma aura de Madeleine Peiroux sondando as canções de Céu. “Concrete Jungle” é legitimamente internacional. Existem alguns suspiros de MPB como em “O ronco da Cuíca” e “Vira-Lata”, mas nada que afaste da cantora sua cara de sofisticação além mar.
Posso não ter compreendido o talento de Céu como ela merece, uma vez que de longe escuto críticas entusiasmada como se de seus cachos brotasse mel dos anjos, mas digo que sem sombra de dúvidas aqui existe algo diferente.
Fugindo do óbvio, Céu não é azul, mas ocre. Uma cor oscilante, um quase sem tom, capaz de ser visto e apreciado em diversas paisagens - mas sem um lugar comum, desapegado das raízes das cores primárias. Uma cor predileta para poucos, mas que traz o charme exótico do não convencional.