O texto da semana passada seria sobre o filme “O Vencedor”(The Fighter) e fecharia minha prévia do Oscar, mas por causa de alguns imprevistos não consegui atualizar este espaço(em tempo ainda escreverei sobre o filme que merece uma menção honrosa pela sua execução e atuações soberbas). Fiz um “boicote” aberto e declarado ao favorito “O Discurso do Rei” ao não falar sobre ele antes da cerimônia do Kodak Theater. Isso, não porque o filme de Tom Hopper não seja uma grande aula de cinema, longe disso, mas porque tudo na produção é clássico e soberbo, tão “a cara” de filme premiado que torci(e pior, acreditei) que neste ano seria diferente de tantos outros onde os “velhinhos” da Academia, foram por assim dizer acadêmicos.
Acreditava que o apelo moderno de “A Rede Social” e seu triunfo no Globo de Ouro fossem suficientes para estabelecer um marco na história do cinema. Lembrando de cabeça não consigo me recordar de nenhuma produção que levou a estatueta de melhor filme que tivesse um tema tão atual e moderno(relativo a sua época); e neste caso dialogando não só com um grupo de pessoas ou intelectuais mas com todo mundo globalizado pós-internet.
Não adianta chorar o leite derramado, mas devo aqui dar o braço a torcer e falar sobre o predileto da Academia neste ano.
“O Discurso do Rei” é, por assim dizer, um filme completo em sua construção e desenvolvimento.
A história de superação consegue ser humana e emotiva, mas não necessariamente piegas. Imagine um grande líder cheio de eloqüência e capaz de arrastar milhões de súditos para o caminho que deseja, inclusive para um campo de batalha. Então, este homem era Adolph Hittler. Do outro lado o futuro Rei George VI, luta contra a dificuldade de falar uma simples frase sem gaguejar, enquanto se aproximam situações de grandes discursos que se fazem necessários pelo contexto político mundial e pela crescente expansão dos meios de comunicação da época, no caso, o rádio.
Motivo de piada, para si mesmo inclusive, o rei é vulnerável. E acredite este é o maior triunfo do filme, apesar das piadas, às vezes certeiras, às vezes desnecessárias. Não seria possível continuar a falar sobre o filme sem abordar alguns detalhes que são os legítimos responsáveis pela credibilidade do que se passa na tela.
O rigor técnico da sua produção é soberbo, dos cenários à caracterização das personagens. Cada roupa vestida pelo Rei George VI(Firth), Pela Rainha Elizabeth(Boham Carter) ou pelo fonoaudiólogo Lionel Logue(Rush) parece ter sido pensada de forma natural e em sintonia com o ambiente luxuoso que os cerca.
Outro triunfo que sem dúvida pesou na hora de decidir as premiações para o longa foram as atuações marcantes e cheias de poder de Helena Bohan Carter, Geofrey Rush e de um memorável Colin Firth.
O tripé segura todo o filme, mas Firth traz o diferencial que poucos longas possuem. Uma grande interpretação é capaz de emocionar e criar um elo de sentimentos com o público, e não só apaga as pequenas falhas de qualquer filme como exalta seus pontos fortes e arrasta com ele coadjuvantes a um patamar de brilho e destaque.
A direção, também premiada com o Oscar, é, na minha opinião, a única grande injustiça deste ano. O trabalho de Tom Hopper é exagerado nos ângulos escolhidos, quase sempre superiores diminuindo a figura do rei, nos excessos de movimentação e nas escolhas que parecem ter sido retiradas de um manual de cinema de Sidney Lummet, faça isso para obter aquilo, o tempo todo. Talvez o clímax do filme tenha sido o grande responsável pela consagração do diretor. No discurso final, Hopper entrega, aí sim, uma cena irrepreensível que poderia sozinha garantir o prêmio de Firth. Uma aula de cinema, minutos que devem ser assistidos mais de uma vez, mas que são poucos quando o objetivo é premiar o filme todo.
O roteiro é certinho como gosta a Academia. Distribui cenas dramáticas de forma homogênea e parece imaginar todo o longa como um sistema de matrizes que garante a regularidade que conduz e prepara o público para o clímax.
Não há dúvida que, agraciado com os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator e Melhor Direção, estamos tratando de uma grande produção, mas me falta empolgação ao falar sobre ela. Coisa que sobra analisando a concorrência deste ano que foi de longe a melhor das últimas edições do Oscar.
Sem mais, “O Discurso do Rei” foi o mais coerente com o discurso da Academia, nem o fôlego de “O Vencedor”, a exuberância de “Cisne Negro”, a virilidade de “Bravura Indômita”, a experimentação de “A Origem” e a atualidade de “A Rede Social” foram capazes de bater o bom e velho feijão com arroz, o papai e mamãe, o café com leite e todas as outras combinações que tradicionalmente vencem na preferência da maioria de qualquer platéia conformista.