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Parece que foi ontem o dia em que conheci Dire Straits. Era praticamente um iniciante em rock internacional que conhecia meia dúzia de bandas e tinha acabado de gastar R$ 70,00 no cd “Pulse” importado em um sebo na cidade de Bauru.
Já sabia que naquele momento, estudante de jornalismo do primeiro ano, minha vocação como ouvinte se mostrava tendenciosa a rock internacional dos anos 60 e 70, e passei naquela euforia a ouvir tudo que me indicavam e emprestavam(afinal, a maioria dos cd´s eram caros e alguns difíceis de achar).
Vidrado pela descoberta dos sons de “Yes”, “Pink Floyd”, “Led Zeppelin”, “The Who” entre outros titãs do olimpo das bandas me vi também encantado por cantores, guitarristas e músicos formidáveis como Clapton, Hendrix, Frampton e Straits...
Ops... isso mesmo. Ignorante que era jurava que Dire Straits era o nome de um guitarrista e não de uma banda. Me soava perfeito o nome, mesmo porque praticamente desconhecia a música.
Lembro-me de uma conversa com alguém que me disse:
- A guitarra do Dire Straits é formidável.
Imaginei como seriam os longos cabelos ondulados do camarada Dire e se ele usava uma Gibson ou Fender. Essa confusão durou pouco, ainda bem porque hoje sinto muita vergonha disso.
Foi assim. E eu lá no sebo com R$ 80,00 no bolso para gastar, levei um “Sultans of Swing – The Very Best of Dire Straits” por dez reais para não voltar com troco para casa.
Que bom. Percebi que o mote repetido à exaustão nos primeiros meses de trote na faculdade era verdade. Bicho é burro mesmo.
Gosto de me lembrar dessa época saudosa, há pelo menos 6 anos atrás, aonde a relação de uma pessoa com sua banda predileta do momento era pautada por uma série de dificuldades que tornavam a aquisição de um cd, fita(!) ou disco(!!) um desafio e conseqüentemente a audição posterior um deleite de horas a fio.
E foi assim com Dire Straits. Não gosto de coletâneas porque elas escondem a história da banda editando seus melhores momentos, mas quem nunca se apaixonou por aquela garota só pelos olhos verdes para depois descobrir outros prazeres escondidos?
E na minha kitnet quarto e sala toquei até gastar “Romeo and Juliet”, “Tunnel of Love”, “Money for Nothing”, “So Far Away”... praticamente o cd inteiro. Depois fui entender o valor da banda, que ia muito além do talento fantástico do guitarrista(este sim) Mark Knopfler.
Em 1977 existiam vertentes de rock difusas e pouco conservadoras que acabaram culminando no terror quase absoluto da década de 80. Questão de opinião, claro.
Existia a porrada punk, a sofisticação exacerbada do progressivo que começava a extravasar a experimentação e beirar o ridículo e também o hard rock que derivava do classic, mas com um peso totalmente diferente. Fora do rock, nas rádios a new wave e o disco começavam a emplacar seus primeiros sucessos.
Dire Straits surgiu sem respeitar nada disso. Não parecia com nada: era simples para o progressivo, sofisticado para o punk, leve demais para o hard e renegado pelas rádios britânicas.
Com regatas e faixinhas na cabeça o Dire Straits parecia mais uma boy band que um grupo de rock, mais um elemento que fugia totalmente do senso comum da época.
Mas como música boa é universal(e atemporal), público e crítica descobriram e se renderam a banda que se tornou referência nos primeiros anos da década de 80.
A voz rouca e afinada de Knopfler e os arranjos soberbos de cordas(e detesto admitir, até o teclado marcante em algumas faixas) garantiram um sucesso repentino que durou durante toda a curta carreira da banda - 5 álbuns de rock de qualidade com sonoridade característica.
Não sei explicar exatamente, mas nunca me lembro de citar o Dire Straits como uma de minhas bandas prediletas, nem suas canções como minhas músicas favoritas, às vezes me esqueço deles e ponto; mas basta ouvir a introdução de “Sultans of Swing” em algum lugar que começo a pensar: “Que som maneiro!”.
Essa impressão não envelhece. E essa sim é uma grande virtude para uma banda. Nós fãs de rock guardamos em nossa audição perene aqueles acordes de um cd que mentalmente nunca te abandonam, que retornam de forma recorrente e quando vemos estamos cantarolando ou tocando baterias e guitarras invisíveis em público.
Sem lugar na linha cronológica à qual pertenciam, os camaradas do Dire Straits entraram como “troco” na minha história musical e saem como uma das bandas mais elogiadas que conheci. Nunca ouvi alguém falar que odeia Dire Straits.
Mais de 100 milhões de pessoas ao redor do planeta concordaram e compraram os discos em uma época aonde isso era um luxo e não um download gratuito no blog do dunha.
E quer saber? Aposto que ninguém pediu seu dinheiro de volta.
Por Armando Teixeira Junior