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15/05/2011 - 20:30
PRIMEIRO DE MAIO

Para estudiosos e, para o povo em geral, o Primeiro de Maio é a data em que se comemora o Dia do Trabalho. Nesses anos todos, nas minhas experiências, eu me lembro, mais, é do já meio folclórico papo de que “por ser o Dia do Trabalho é que todo mundo deveria trabalhar”.  Naquela Atibaia dos anos 50, o Primeiro de Maio também era, por motivos óbvios, o dia do lazer . Ou seja, já que era feriado por ser o Dia do Trabalho, então nada como aproveitar pelo significado oposto, isto é, descanso, passeios, piqueniques...

Assim, uma das referências para mim do feriado em questão, era, quando ainda na infância, passeios com minha família aos sítios, fazendas dos familiares e amigos de meus pais. Meu pai só nos levava, pois ele se dava ao prazer de trabalhar, lá na sua oficina da avenida da Saudade. E nós passávamos o dia todo correndo, subindo em árvores para apanhar frutas ou pelo simples prazer do desafio de subir nas árvores.

Já, na adolescência, o feriado do Primeiro de Maio era dia de futebol, dos piqueniques e do grande desafio e, por isso mesmo, maravilhosa aventura da ida até a Pedra Grande. No futebol, era dia do Campinho da Prefeitura.  Podia ser um racha qualquer, com os times formados na base do par-ou-ímpar, ou mesmo qualquer time formado na hora contra o time do Marcos Propheta, ou do Jair Brechó. Tinha uma certa formalidade e se conseguia até um  árbitro. Na hora, ali mesmo no campinho, de comum acordo.

Os piqueniques eram sempre um lugar distante, em que se dava para ir a pé ou de bicicleta, sempre acompanhado de uma pessoa responsável. Às vezes, no Corradini, onde havia um gramado muito gostoso para jogar futebol, isso para quem gostava, e outras formas de divertimento. Inesquecível quando fomos a um dos sítios da zona rural de Atibaia e estávamos sob a “responsabilidade” da Profa. Ciomara Cacelli, que ministrava aulas de matemática e de religião no Colégio Estadual. Claro, era condição para que as moçoilas de então fizessem parte.  É ... os pais de antigamente eram mais durões... E elas iam.  Senão... não teria graça nenhuma.

Assim, quando ouço o nome de Tito Madi, o grande compositor e letrista da época da Bossa Nova, vem-me à memória um piquenique em que, numa brincadeira, quem errasse a resposta de uma pergunta deveria pagar uma prenda.  Leitor, não estranhe muito essas palavras. Afinal, naquela época, televisão, internet, videogames nem estavam ainda na mente dos cientistas...  E, como errei a resposta, a turma toda, moleques e garotas do ginásio e do colégio me torturaram com a tarefa de ter de cantar alguma música. Não fugi da raia, agüentei firme e entoei a música, sucesso da época, CHOVE LÁ FORA, do Tito Madi. A frase da D. Ciomara “Você é muito afinado, João” me levou a acreditar que poderia até tocar algum instrumento. Talvez por isso é que, hoje, tiro músicas de minha gaita nas hora de solidão e estou no aprendizado do teclado. O Univaldo Cirera cantou outro grande sucesso da época GAROTA DE IPANEMA.  O Univaldo era afinado e tinha voz de cantor.

A ida à Pedra Grande era outra grande opção para gozar o feriado de Primeiro de Maio. Não, claro, a moleza e ausência de sensações de ir de carro, subindo ali pela estradinha perto de Bom Jesus de Perdões. Mas indo a pé, passando ali pelo Retiro da Fontes e pegando o sopé e a encosta da montanha e, depois de umas 4 horas, segurando nos galhos das árvores e arbustos, entre escorregões e tombos. E quando se chegava, a visão maravilhosa da enorme pedra
lisa, com sua superfície como que deslizando suavemente até o desconhecido...  As paisagens lá embaixo. Ali também estava a atração mor, o cocuruto, o bloco de pedras já gastas pela erosão de milhares de anos. E de onde se pode ver, a olho nu, a misteriosa ou, digamos, impressionista ou surreal visão dos cumes dos arranha-céus, de São Paulo ali no meio das nuvens.

E gente carregando nas costas as espingardinhas de chumbo, até carabina. O impreterível cantil na cintura, botas...  Não faltavam as garrafas da famosa água que passarinho não bebe, ou a cachaça. E, lógico, os lanches, os assados frangos e as farofas. Era uma farra só.

Entre as coisas que ficam na minha memória estão a notícia ou boato deque, num Primeiro de Maio, alguém tinha caído na Pedra ou da Pedra.  Muita gente, na cidade, gelou. Outro caso é que alguém tinha acertado por engano um tiro daquelas espingardinhas num companheiro.  Verdade ou não, não sei ao certo. Mas a cena imorredoura foi mesmo a do Baltasar, uma daquelas figuras populares de Atibaia, conhecido pelo seu estilo de jogar nos rachas do Campinho da Prefeitura, de casacão que ele jamais tirava e pelo gosto de tomar umas e outras. Um grupo que ia subir à Pedra Grande, num daqueles Primeiro de Maio, encarregou o Baltasar de levar o combustível para a aventura, ou aquela garrafa de aguardente. Quando chegaram ao topo da viagem, perguntaram ao Baltasar onde estava a procurada desejosa garrafa.  O Baltasar olhou para o céu, coçou a nuca e respondeu na ali na bucha:

-Então, né, eu tava subino, né, e o gainho que eu segurava quebrô.  Daí então, eu caí, né e quando caí, o dedão da mão caiu bem em cima da roia da garrafa. Aí a roia afundô e vazô tudo...

Não sei se a história do Baltasar e a causa do sumiço da pinga foram verdade, mas é como se disse naquele belo filme de John Ford, O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA , “Quando a lenda supera a história, publique-se a lenda.” Quem quiser que conte outra.

A memória é intensa, o tempo curto, o espaço exíguo. Então, até a próxima.

Por João Batista Neto Chamadoira
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