Em 1951 a situação do cinema era bem diferente. Tendo por base o Oscar daquele ano percebi com tristeza que aquilo sim era um recorte de grandes filmes disputando um prêmio de soberania da sétima arte.
“Sinfonia em Paris”, levou os prêmios de “Melhor Filme”, “Roteiro”, “Direção de arte”, “Fotografia”, “figurino” e “Música”. “Um Lugar ao Sol” venceu o Oscar de “Direção”(George Stevens), “Roteiro Adaptado, “Fotografia em P & B”, e “Edição”. Concorrendo também naquele ano estava o clássico “Uma Rua Chamada Pecado” que faturou a trinca de “Melhor Atriz”(Vivian Leigh), “Melhor Atriz Coadjuvante”(Kim Hunter) e “Melhor ator coadjuvante” (Karl Maiden). E Marlon Brando? Estava sim fantástico e em um papel antológico mas não superou o veterano Humprey Bogart que garantiu o seu prêmio de melhor ator por uma cômica e magnífica interpretação em “Uma Aventura na África”. Só lembrando que além desses, em 1951, tivemos ainda clássicos como “Pacto Sinistro” de Alfred Hitchcock e “A Montanha dos Sete Abutres” de Billy Wilder, além de “Rashmon” de Akira Kurosawa, que apesar de ter estreado no ano anterior, também foi lembrado na cerimônia da Academia.
Perto de tudo isso cinema hoje é garimpo. Pegar uma picareta e com muita paciência procurar entre pilhas de pedras dispensáveis uma pepita que resplandeça qualidade. Muitas produções são lançadas anualmente e raro são os casos de novidade, frescor e legítima apreciação de um cinema arte que não seja datado por imperfeições temáticas tolas de nosso tempo ou ainda se tornem escravos das novas tecnologias se preocupando demais com o traje de gala e de menos com quem vai vesti-lo.
A franquia Harry Potter é um grande exemplo disso. Nada contra o bruxo, mas, baseado em uma obra literária para um público jovem e adolescente, os filmes da série simplesmente mobilizaram recursos e mídia que garantem seu sucesso sem necessariamente oferecer uma grande opção de “cinema”. Nada de interpretações geniais, mas efeitos... esses sim estão lá. È o tipo de lançamento cômodo e garantido que limita o investimento em algo inovador.
Cada vez menos vejo “grandes atores” e “diretores geniais”. Não estou falando de lapsos de grandeza que ainda existem aqui e ali, mas de ícones.
Os grandes atores de nossa geração, assim como os diretores mais conceituados de 20 anos pra cá, se dão ao luxo de desaparecer por anos antes de voltar à telona. Sem perceber também acabamos por definir como “ícones do nosso tempo” grandes nomes das gerações passadas que hora ou outra nos presenteiam com sua presença na sétima arte. Tom Hanks, Russel Crowe, Robert De Niro, Jack Nicholson, lançaram poucos papéis relevantes nos últimos anos. Atrizes? Alguém têm uma unanimidade como musa?
Scorcese, Spielberg, James Cameron, ... se dão ao trabalho de aparecerem quando querem ou alguém acredita que um filme leve realmente 4 ou 5 anos entre pré/produção/pós?
Há 60 anos tínhamos novidades no ano que incluíam Marlon Brando, Humprey Bogarth, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Gene Kelly, Katherine Hepburn, Vivian Leigh e Kirk Douglas...
Diretores como Alfred Hitchcock, Billy Wilder, John Huston, Akira Kurosawa, George Stevens e Elia Kazan produzindo à todo vapor...
Me desculpem os heróis da vez, “vingadores” e deuses nórdicos, os carros que viram robô, os bruxos adolescentes e toda a parafernália que hoje ocupa as mentes e corações dos estúdios, mas não existe nenhum padrão de entretenimento que supere um bom musical com Gene Kelly, uma boa comédia com o duo Bogarth/Hepburn, uma interpretação visceral de Brando sob as lentes de Kazan, nem um drama naturalista tão bem(amargamente) construído como “Um Lugar ao Sol”.
Uma pena. Em 60 anos parece que aprendemos pouco e por um punhado de dólares fáceis esquecemos o essencial.