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Ainda com a mente e o coração impregnados da beleza do filme obra-prima de Woody Allen, MEIA NOITE EM PARIS(Midnight in Paris), volto minhas vistas para o tempo e para o espaço dessa imorredoura Atibaia. Sei que há pessoas que detestam trazer à memória coisas do passado, Que leiam o CHEGA DE SAUDADE e as crônicas na FOLHA DE S. PAULO do Ruy Castro ... Mas... No filme em questão, Allen se personifica na figura curiosa, atrapalhada de Gil, numa estada em Paris. E lá Gil encontra grandes monumentos da cultura das décadas de 20, 30, 40, (século XX), como Heminguay, Picasso, Jean Cocteau, Gertrude Stein, Salvador Dali, Lautrec, Mattisse, Cole Porter, Buñuel, T.S. Elliot, Faulkner que também, de certa forma, ou porque meus professores do colégio ou da faculdade de letras me seduziram por suas obras, ou porque minha curiosidade ou sugestões do Prof. Contesini fazia-me ir semanalmente ao Suplemento Cultural do Estadão. Sem, claro, querer repetir aqui Woody Allen,- mesmo porque, segundo Fernando Pessoa, não adianta escrever mais nada, pois tudo já está escrito, a tal da intertextualidade, ou pela Linguística Francesa interdiscursividade -, mas porque tenho também minha, como no filme se diz, “nostalgic shop” ou, no caso, “nostalgic feelings”, faço meu pensamento ir até a Atibaia dos anos 60, 70. Daí...
Que me perdoem os leitores pela aparente posse dos direitos autorais do filme de Allen. E pela reescritura do belo filme sob meu ponto de vista.
Numa noite em Atibaia, ao sair do restaurante após um jantar com o inevitável vinho, fui parar na praça da Matriz. E, apesar do friozinho, do vazio do local –AO VALENTIM fechado, Hotel Municipal inexistente, o Recreativo fechado e às escuras, a estátua do Major e o coreto onde se ouvia a banda tocar desaparecidos por um falso e absurdo “progresso”, sem as rosas que enfeitavam e roseavam com seu odor os jardins dali, deu-me a vontade de me sentar num dos bancos, já que não mais havia os degraus dali.
Eis que, buzinando, para ali um carro, daqueles igual ao do Eliseu Mariano, um Ford, creio, 30 (?)com dois ocupantes que pedem para eu entrar. Porta aberta, meio desconfiado, entrei. E lá, sem mentira nenhuma estavam o André Carneiro, grande ficcionista e o Elomar Vaz de Lima. E fui como que arrastado por eles para um bar novo lá da cidade. Será que estava sonhando? E queria que ele falasse um pouco de suas obras como PISCINA LIVRE, AMORQUIA DIÁRIO DE UMA NAVA PERDIA. E do filme SOLIDÃO. Mas ali não dava. E o Elomar então com aquelas gostosas gargalhadas tentou lembrar-se dos tempos que defendia com unhas e dentes os ideais comunistas e das aulas na Cachoeirinha e na Escola Federal. Mas o carro parou num bar novo em Atibaia, ali perto da antiga Estância Lynce. Entramos e lá, com o queixo caindo, vi o Prof. Cármine, falando sobre a vida na escola, como ele ensinava – e bem – análise sintática – e nos obrigava, graças a Deus a ler um livro e escrever a ficha de leitura a cada quinze dias. E do tempo em que dando uma de técnico de futebol nos orientava no time do “Grêmio do Cármine”, que era o time do colégio com alguns convidados. No fundo do bar lá com um vinho, já no fim da garrafa, o Andrés Romera, o inesquecível professor que ensinava Latim quase sem falar de gramática, hoje colega no ensino superior. Aula era só tradução. Um delícia. Perguntou-me se havia lido seu livro NOVA GRAMÁTICA ESPANHOLAPARA BRASILEIROS e na verdade, apenas só tinha folheado. Mas, sem dúvida, muito útil e prático. Estava ali na conversa com o Romera quando um piano deu o sinal de vida. E ali estava a Jandira Massoni cobrindo o ambiente com as notas de um Tico-Tico no Fubá, do Zequinha de Abreu. Terminada a música com a Jandira, eis que surge ali o Armandinho Petrucci com seu violão que, nas noites de domingo, abrilhantava o programa DOMINGO DE FESTA, lá do salão do São João Futebol Clube, ali, na rua José Alvim. E veio aquele chorinho delicioso no conhecido violão. E estavam ali a uma mesa, as professoras Lourdes Alvim, Aracy Conti, Aracy Salles, Dona Marcolina com o marido, o Prof. Constantino Simões de Lima, discorrendo sobre o futebol da terra. E foi com grande prazer que vi as pintoras Gersey Pinheiro e a Lúcia, ambas acompanhadas pelos maridos, os colegas Peca e o Puruca- este nunca mais o vi depois de uma ida minha a Campinas. E de repente, o som gostoso da música WHAT’S NEW, no sopro do Douglas Brucutu Zago. E mais para o fundo lá perto do chope os irmãos Zaguinho, o Antônio Pedro e o José Vitório. De repente o Barriguinha falando de futebol. Não sei por que cargas d’água, mas com memória fabulosa, estava dizendo o nome dos jogadores da seleção uruguaia campeã do mundo no Maracanã em 1950. E falou também do tempo em que era goleiro do time do ginásio. Estava conversando com o Barriguinha quando surgiu, não sei de onde o Cuié, e pediu-me um texto para o jornal O BALAIO. Nessa até a Cidinha Bonini com o Totonho apareceu para nos lembrar de que o próximo almoço dos “anos dourados” estava agendado para o dia 5 de novembro. E que era para nós espalharmos. Mas, como não podia deixar de acontecer, as figuras do Valeriano Rosa (o Formigão), o Tavinho e do Marco Antônio Fagundes, o Wilson, lá do Hospital Novo, o Pedro Calil e as irmãs Teresinha e Nur. Até a Tizuka Yamazaki, a nossa cineasta. Não podia deixar de estar lá também o Magrela, o Borê, o Remo, o Vicente Queiroz... Via aquilo como um sonho e para completar ainda, o bar recebia também os irmãos Gil de Oliveira – Edson, Nelson, Adilson e a Darcy, esta agora livre da perseguição da ditadura. Pensei: será que bebi vinho demais? O que estaria acontecendo? Mas aí veio o Gibe com aquela cara de que tudo aquilo era normal As pessoas, aquelas músicas e recomecei a ouvir a Jandira Massoni ao piano. E ao som da música LET’S DO IT, do sensível Cole Porter,ouvi o André Carneiro e o Elomar me chamarem. Estava na hora de irmos embora. No fordinho, me deixaram no largo da Matriz... Teria sido sonho? Se foi, foi maravilhoso.
Até a próxima.