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- Um, dois... Um dois... Um dois... Esquerdo, direito... esquerdo, direito...
Era uma das professoras de Educação Física, emprestada ao Grupo Escolar “José Alvim”, nos orientando na marcha, no ensaio para o desfile do 7 de Setembro.
Perdoem-me aqueles que se recusam a trabalhar a memória, botando a culpa na idéia de que pensar em épocas passadas é a bobagem de nostalgia. Como viver sem o passado? O tempo nos prega peças. Assim, pessoas que têm o que contar do passado e o fazem com prazer, seja na História ou nas ingênuas crônicas, têm oportunidades de mostrá-lo aos interessados que não viveram e aos interessados que o revivem.
Mas a memória, o passado cutucam inevitavelmente quem, como eu, já com setenta, completados hoje, dia 9, não poderão sonhar com os 50, 60 anos que viveu no passado, sonhando com 50, 60, anos no futuro. E é assim que vejo com uma espécie de luneta do tempo alguns momentos de um tempo da Atibaia. O feriado do 7 de setembro é um desses momentos.
Naquela época, o Grupo Escolar, o Colégio Major, as professoras sisudas, os professores com cara de sérios, mas boas praças. E fora da sala de aula, tudo era diferente. O cansaço de, no fim do período, ainda ter de marchar, “até aprender”, era amenizado por um certo sadismo de ver que alguns colegas teimavam em não saber começar, com o pé esquerdo, a marcha. “Esquerdo, direito... esquerdo, direito... A ladainha da professora ensaiando-nos prosseguia... Se não me engano, era a cunhada do Professor João Pereira Dias. Para nós, ainda no Grupo Escolar, que desconhecíamos mulher usando tênis– coisa para homens, na época - e ainda de saia bem larga e longa, era no mínimo estranho. Fanfarra ainda pequena, um surdo, um bumbo, duas caixinhas de guerra e duas caixinhas de repique e duas cornetas.
Mais tarde, já no ginásio, a fanfarra era maior. E no colegial, creio que no segundo ano do curso clássico, entrei na fanfarra. Segundo meu grande companheiro, hoje meio desaparecido em Campinas, Puruka, se a gente não pegasse alguns daqueles instrumentos de percussão, estaríamos perdidos. Afinal, os mais velhos e maiores da turma, seríamos premiados com o peso de carregar bandeiras pesadas pelas ruas de Atibaia. Entramos na fanfarra. Nós dois com as conhecidas caixinhas de guerra. Do primeiro dia de ensaio até a véspera, podíamos levar o instrumento para nossas casas para treinarmos. Houvesse barulho, perturbação da vizinhança. E era gostoso fazer aquele barulho, num ritmo que, em geral, fazíamos, nos tempos de criança, em latas velhas ou mesmo com as mãos fechadas nas mesas. Delícia.
No começo o professor de Educação Física, O Vasco Raimundo de Brito, o Barbosa, o Sidney Malmegrin davam as dicas. Depois era nomeado um dos alunos que já tinham alguma experiência em fanfarras para comandar. Lembro-me bem do Bressani, lá de Caetetuba, erguendo, lá na frente, os braços e indicando com a mão e os dedos os diferentes toques. Assoprando um apito, indicava com os dedos os toques. Tal qual maestro, o Bressani baixava os braços e, como por encanto, ou magia, a turma toda mudava o toque. Havia, se lembro bem, 5 toques. O 5º toque ainda contava com a batida bem ritmada das baquetas uma na outra. O bumbo, o surdo davam as coordenadas. As caixinhas de guerra floriam as batidas deles e as caixas de repique detalhavam mais ainda. Todo mundo lá falava que o melhor repiquista era o Luíz Valério Cintra, conhecido popularmente pela alcunha de Beronha O cara dava mesmo show de repique.
As cornetas eram um capítulo à parte. Via-se o esforço que os corneteiros faziam para tirar aqueles conhecidos sons das marchas meio militares que brigavam com o barulho da percussão. Agora era então o Totonho Simões de Lima o maestro da fanfarra. E o conjunto afinado, ritmado.
Um belo dia, inventaram um tal de uniforme para os caras da fanfarra. Diferenciava da vestimenta do pessoal que marchava lá atrás sem tocar os instrumentos. Era um blusão azul, no lado esquerdo, o do coração, o emblema do Colégio.
E o desfile do 7 de Setembro era aguardado por Atibaia toda. A rua Direita, José Alvim atulhadas de pais, amigos, irmãozinhos e parentes observar com orgulho a rapaziada desfilando. Antes era apenas os estudantes de todas as escolas: colégio, grupo escolar e as escolas particulares. Um ano tiveram a idéia de colocar ciclistas à frente do desfile. Saí da mera marcha para o destaque das bicicletas. Também seria absurdo eu não sair de bicicleta, com tantas “magrinhas” de todas as marcas, cores e épocas que meu pai tinha. Mais tarde, com a Atibaia desenvolvendo-se, no desfile apareciam os tratores, jipes, caminhonetes, representando as empresas, os agricultores...
E depois vinham os alunos, marchando com os pés trocados, das chamadas escolas primárias, o pessoal da Escola de Comércio com grande fanfarra, e as alunos uniformizados... Os alunos marchando, com pelotões separados por um ou outra aluna. Eram os destaques, não podiam errar.
Um, dois ... um dois ...um dois...
E no 7 de Setembro de 2011, como terá ido o desfile das escolas de Atibaia? Aliás, houve desfile? Foi bonito? Como foi? Ou será, como foi apregoado pela Internet, houve protestos do povo, vestido de preto, contra as atitudes de nossos absurdos políticos?
Fico aqui a matutar como o espaço interfere no tempo, este no espaço. E o pensamento vai até o fundo da memória e tudo se confunde. Barulho do bumbo, surdos, caixinhas de guerra, repiques, cornetas, a tradicional Marcha Batida...
Mas, memória cheia, espaço exíguo. Então até a próxima, com mais reminiscências daquela época...
Por João Batista Neto Chamadoira