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23/09/2011 - 23:00
Terra de Ninguém e Terrence Mallick

Ser parecido com James Dean

Este é o tema de Terra de Ninguém (Bad Lands), filme de 1973 do diretor Terrence Malick, - não confundir com o ótimo “No Man´s Land”, de 2001, que aqui no Brasil recebeu o mesmo nome.

O filme pode não parecer nada com os dois longas que deram mais visibilidade à Mallick, o fabuloso drama de guerra “Além da linha Vermelha” e o recente ganhador da Palma de Ouro em Cannes, “A Árvore da Vida”, mas não deixa de ser existencial e agudo na análise social e de comportamento do ser humano.

Por isso antes de estender o tapete vermelho para o ótimo lançamento do diretor achei necessário revisitar sua obra mais obscura que fala sobre juventude, mas não qualquer juventude.

Assombroso e distante, o filme nos apresenta o jovem casal de deliquentes juvenis Kit e Holly, vividos de forma fugaz por Martin Sheen e Sissy Spacek.

Sheen aos 30 e Spacek aos 24, estão críveis nos papéis de jovens de 25 e 15 anos, respectivamente encarnando o bad boy inconseqüente e a ninfeta fútil clássicos atraídos pelo destino.

A desilusão de uma geração toda transborda no niilismo furioso e adolescente que permeia a não razão dos atos extremos de um casal tão infantil quanto vazio.

Kit é o lixo da cidade. É dispensado do trabalho como lixeiro e representa uma geração desmotivada e sem perspectiva, sem ilusões de grandeza ou mesmo uma grande ideologia para seguir como norte. Não é o contraventor decidido é como uma criança que pisa em uma formiga por maldade pura e ingenuidade ao mesmo tempo. Conhecendo o ato, mas não a razão e o significado que contém Kit está armado e perigoso. Armado não de idéias, mas com pólvora e balas que são atiradas como se não fossem realmente capazes de matar.

Holly é uma bonequinha suburbana. Nos shortinhos brancos apertadinhos recém preenchidos com alguma carne, uma menina que se preocupa com os estudos, lê as revistas para adolescentes e espera uma paixão arrebatadora. Ao mesmo tempo é tão vazia que é capaz de fugir de casa só por não ter nada melhor para fazer e “inventar” uma paixão só para escrever a palavra amor em seu diário.

Eis uma sina e tanto para uma geração inteira de jovens que assombrou os Estados Unidos criando um colapso moral e de comportamento que minou a sociedade conservadora e quase ruiu seus alicerces familiares.

A vida vivida a beira do nonsense é retratada por Mallick através de cenas poderosas e da recorrência da morte. Um cachorro e um peixe moribundos dando seus últimos suspiros em imagens ou a citação do verbo “morrer” e “matar” até quando o assunto são galinhas e bois utilizados como alimento.

O “spring of kill” do casal em fuga é memorável e por vezes Kit afirma não saber dizer por que deixou esse viver ou atirou naquele outro... nem a personagem que agoniza pergunta o que fez de errado... apenas se conforma.

A casa construída na árvore, totalmente irreal e infantil, as cenas em um casarão e o roubo de um cadilac e um chapéu mostram as aspirações do subúrbio que vive o sonho americano. Crianças sonham com casas na árvore e adultos com cadilacs e mansões.

A relação entre Kit e Holly é tão fria quanto possível em um pacto selado a sangue. Apesar da adolescente se declarar apaixonada em seu diário lido em off o que vemos é uma relação sem arroubos de sentimento, algo ocasional e raso. Até os exo se revela uma descoberta insossa...

Preocupantemente real.

O pesadelo de psicólogos, papais brutos e mamães amáveis, vestia jeans colado ao corpo, jaqueta e um inconfundível topete. Vestia saia rodada, fita no cabelo e lia fotnovelas. O absurdo da existência humana e do conviver em sociedade alça vôo para além de Sartre ou Camus e atinge a adolescência, uma fase raivosa cheia de energia para gastar. James Dean.

Para encerrar o quadro magnífico do cenário norte americano de toda uma época, Mallick mostra a prisão de Kit como algo glorioso e redentor. Os policiais, que representam a lei e teoricamente a sociedade americana, não condenam Kit, mas mostram certa idolatria orgulhosa em meios sorrisos e atos de admiração. “Um pente pra você colega!”

O estereótipo da felicidade do “American Way of Life” começou a ser destruído muito antes de Lester Burhan abrir a porta de sua “vida às vésperas da morte” em “Beleza Americana”. A família bem sucedida e realizada por fora e embolorada por dentro em suas relações dava as caras em muitas versões e gerações, dentre elas nos pais que não conseguiam segurar em seus lares os casais jovens que poderiam surtar e cruzavar o estado atirando e cometendo crimes que beiram a imbecilidade.

Bad Lands é assim como um retrato, com um toque onírico e fantástico majestosamente orquestrado por Mallick, parecem fotos em slide e não necessariamente cenas em movimento. Um filme sobre um tempo e sobre um ícone.

Hipocrisia: Todos amam James Dean, mas sua morte é necessária.

 

 

 

 

 

Por Armando Teixeira Junior
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