Nas décadas de 50 e 60, éramos agraciados por três feriadões no mês de novembro. Havia os dois dias seguidos 1º e 2 de novembro e o 15 de novembro. Não há mais o feriado de 1º de novembro, que era dedicado à comemoração do dia de Todos os Santos, que é ainda comemorado em Portugal. O dia de Finados, ou como se diz popularmente, o dia dos Mortos, pelas próprias circunstâncias, um dia em que uma atmosfera, ar de tristeza, marcava as nossas vidas de então. Até a missa era no cemitério, naquele tempo, o único de Atibaia e, creio, dava o nome à avenida, a da Saudade. Mas para nós, então, apesar daquilo que minha mãe falava – que era dia de tristeza, de silêncio – constituía um feriado comum. Jogo de botão, futebol, xadrez, estudo para a prova, andar de bicicleta...
De curioso, pegava a bicicleta e ia até a avenida da Saudade. Quanta gente! Aquele cheiro de lírio, cheiro de vela, pastores, com a bíblia aberta nas mãos, discursando para ninguém. E eu, curioso do mundo, meio metafísica e filosoficamente, chegava a me perguntar se naquele dia haveria enterros. Afinal, nunca havia visto, no dia de Finados, um enterro. Fora ou dentro do cemitério. Naquela época, os enterros eram realizados a pé. Atibaia não era muito extensa em seus territórios habitados. Vez ou outra, um carro de defunto vinha de outra cidade e, pela formalidade, na minha inocência achava que o morto era algum padre. Coisas de criança curiosa e pronta a entender o mundo que não entendia. Claro, a morte é sempre triste. Mas interligando, metonimicamente, às manifestações em relação à morte, lembro-me, inclusive, de que nos jogos de futebol no Pacaembu, durante aquele demoradíssimo um minuto de silêncio, ouvia-se a música Ave Maria, de Charles Gounod (que, na verdade, introduziu um compasso na composição feita por Bach, 137 anos antes). E os torcedores até se levantavam em homenagem ao homenageado. E o silêncio ficava no ar. Não como hoje. Em Atibaia, a morte, sem os práticos e oportunos velórios que existem hoje, era , muito mais triste. Velavam-se os parentes que iam para a outra vida nas próprias casas. E era fácil e até constrangedor para o menino, que eu era, ver na porta de uma casa aquelas fitas ou cortinas nas cores então tétricas amarelas, pretas ou roxas. Sensação de dor, tristeza, medo. Quem passasse na frente dessas casas sentiria aquele cheiro de finados em porta de cemitério: cheiro de lírios. Na casa toda, aquele odor de lírio com café e ... vela. Na sala, algumas pessoas, geralmente as mulheres, pois os homens se escondiam ou iam para o seu lugar que era a cozinha da casa. No começo, a conversa entre eles girava em torno do falecido, suas qualidades, seus defeitos, as particularidades de sua personalidade. Depois, a conversa descambava para as piadas de ocasião, futebol... Como hoje se faz nos velórios. Os homens em geral ficam na parte externa dos locais apropriados para os velórios. Naquela época, o luto era muito mais triste e marcado que hoje. Não se ouvia rádio por três meses, todos deviam usar roupa escura – vestidos, blusas, saias escuras. Nos paletós masculinos, aquela tarja preta no alto, no bolso da lapela, do lado esquerdo, indicava que a família tinha perdido um ente querido. No famoso romance da Senhora Leandro Dupré, “Éramos Seis”, havia uma cena que machucava. Quando falecera um personagem da família, a menina que ia sair para ver o velório, recebeu um pedido de que usasse uma roupa mais escura. Era mãe ou o pai que falecera.
Nas emissoras de rádio, impossível ouvir-se musica de que gostávamos. Só música erudita, que, naquela época não fazia muita questão de ouvir. E música bem baixinho e lenta. Pela roupa, distinguiam-se facilmente uma viúva de uma não viúva. Era clara a evidência de que alguma pessoa tinha perdido um ente querido. Hoje, ainda em alguns casos, alguns resquícios dessa cultura, como bandeira a meio pau, time de futebol ainda usa na manga da camiseta uma tarja preta. Claro, justos e naturalmente explicáveis os costumes e homenagens. Mas sem aquele clima de tensão, medo, que caracterizava as homenagens aos mortos. Lembro-me de uma das primeiras sensações de que esses costumes antigos estavam passando: foi o fato de que, em 1971, em Porto Alegre, vi um cemitério em que os túmulos eram postados um em cima de outro. A princípio, julguei uma heresia. Depois, ainda naquele cemitério no Rio Grande do Sul, havia apartamentos para passar-se a noite, restaurantes. Podia ser até que isso houvesse em São Paulo. Mas, perdoem-me os leitores. Nunca tinha visto até aquele dia algo semelhante. Afinal, parecia-me um sacrilégio essa coisa de economia de espaços, empilhando os defuntos. E de haver apartamentos para passar a noite - verdadeiros hotéis em cemitério. Mas já era sinal de mudanças no jeito de ver as coisas relacionadas à morte. Mudanças para melhor. Inclusive uma certa democratização, se é que se pode dizer isso, nos cemitérios modernos. Nos tradicionais e antigos, diferenças sociais dos mortos acompanhavam as diferenças sociais dos vivos. Túmulos como os da época dos faraós, verdadeiras c apelas, ricos, feitos de mármores, contrastando com os de apenas com um cercadinho de tijolos, ou mesmo um monte de terra. Hoje, nos modernos cemitérios, a similitude, a semelhança, igualdade, igualam os pobres e ricos. Todos iguais ... Sinal dos tempos.
Outra grande mudança nos costumes de velar os mortos veio com as vendas de túmulos. Parece que as pessoas perderam certo medo de encarar a morte. Era um medo estranho. Lembro-me do diálogo entre uma colega de mestrado no início da aula de Semântica, lá na PUC-SP, com a saudosa, competente e bondosa doutora em Lingüística, Madre Olívia. Quando o papa Paulo VI faleceu, uma ex-colega perguntou à professora se, pela morte do papa faria feriado, não haveria aulas. Mas a Madre Olívia, seguindo os preceitos de excelente professora, respondeu-lhe que a aula haveria e seria uma homenagem a um dia feliz em que alguém tão importante passaria de um lugar cheio de problemas, tragédias, para um lugar pleno de felicidade e espiritualidade. Nós alunos assistimos à aula muito mais dispostos e atentos.
E enquanto elaboro esta crônica sobre o dia de Finados, minha atenção se dirige para os que atingiram a outra vida e, decerto, estão nos olhando. E o feriado de Finados contribuiu para a execução desta tarefa mensal que faço com grande prazer: deixar no monitor o testemunho de minha experiência literária frente ao mundo.
E se a memória é muita, o espaço é exíguo. Até a próxima.