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“Joãozinho cabeçudo,
Mas tem belo coração.
É dedicado ao estudo
E sempre sabe a lição.”
Vendo uma foto de minha avó, lembrei-me da quadrinha acima, que ela sempre andava recitando para mim. Depois, vi a foto, lá de 69 anos atrás, sentado como num cisne como num cavalo. Como era costume naquele tempo. De fato, eu era mesmo cabeçudo. É assim, as marcas do passado, mesmo que não queiramos, ficam. E neste mês de janeiro de um novo ano, para muitos um mero correr de horas e dias, mas para este cuja memória não cansa de trabalhar, o início de novo e sempre promissor ano. E para uma pessoa cujo futuro já se descortina não muito longo, afinal a septuageneidade parece até um favor e sonhar com o devir torna-se mais difícil. Então não s onhemos com futuros, mas vivamos o passado. Perdoem-me os avessos àquilo que chamam de nostalgia, mas o presente –já é um chavão, clichê – é fruto do passado. Posso pensar num Brasil que podia estar bem melhor se muita coisa fosse feita com seriedade no passado, especialmente, na educação, na saúde... E como professor - agora com duas aposentadorias, uma pedida e outra engolida na marra pelos inexoráveis 70 anos – a mente vai até os anos de escola primária e secundária, passa pelos tempos da faculdade, de dura realidade política no Brasil, pela maravilha que era ensinar na escola pública e chega até esta nova escola pública. Saudade de quando podia-se confiar nos atendimentos dos hospitais públicos, sem essa de convênios e tal.
Mas meu passado, eu, romântico incurável, ainda é Atibaia, apesar de meus 35 anos de São Paulo e 13 anos de Bauru... E tal qual uma clépsidra, ampulheta ou relógio que contraria a passagem do tempo certos marcantes vêm, teimosamente, a todo instante, como e ficam as cicatrizes e as boas lembranças de nossa vida. Entre as cicatrizes, felizmente quase imperceptíveis, os naturais problemas de um adolescente convivendo com a vontade de fazer coisas proibidas e que hoje não são mais. Mas eu fazia, ora! Por que não? Certo dia, em Atibaia, no largo da Matriz, que teimosamente tentam apelidar de praça Claudino Alves, sol quente, céu azulíssimo, pude ver a montanha lá ao longe engalanada pela Pedra Grande e o cocuruto. E as imagens claras de uma daquelas excursões que fazíamos até ela, a pé – notem bem – a pé, subindo por quatro horas a montanha até a Pedra Grande. Até, parecia, como vi numa foto, Fidel Castro e Guevara em lutas, escalando a Sierra Maestra. Mas ali naquele saudoso banco da praça, o tempo qual um filme desfilava as imagens imorredouras de uma Atibaia, por certo, inesquecível. E era o Santo Cruzeiro, aquela cruz ali próxima à prefeitura, o Campinho da Prefeitura, onde se revelavam os craques que envergaram um dia as camisas do São João Futebol Clube e o CETEBÊ, que, hoje, por uma revolução burguesa de cima para baixo, transformados em São João Tênis Clube e Grêmio Esportivo Atibaiense. E veio o largo da Máquina - onde hoje está a Estação Rodoviária – outro celeiro de craques. E vi ainda, dan çando na minha frente as moçoilas que desfilavam nos carros alegóricos nos carnavais do São João Futebol Clube e Clube Recreativo Atibaiano. E as severas mas afetivas professoras do Grupo Escolar José Alvim, os professores e professoras do Colégio Estadual e Escola Normal “Major Juvenal Alvim”, antes de transformar-se em “Majorzão”. Instantes após, num desfile de odores os doces de abóbora, de mamão, manjar e sagu que minha avó fazia. De repente, as revistas da banca do Barqueta que, numa ingênua cumplicidade o Peca nos emprestava antes de vendê-las. E o calor da praça me fez pensar nos sorvetes do Ao Valentim. E, como adivinhando, surge, do nada, o desfile dos famosos sorvetes, hoje do Luiz Passador e da Diva, num oferecimento até meio sem-vergonha, mas irrecusáveis. Após os sorvetes, pensei na água. E aí vieram os moleques com as fresquinhas águas das biquinhas da Fonte, perto do Balneário, daquela de perto do colégio, e daquela do morrão, caminho para quem ia até a Estância Lynce (hoje Lynce Estância Clube) ali na Lucas Nogueira Garcez. Olhei para a esquerda e vi a tabuleta enorme de lata, com as inconfundíveis letras do Lázaro Chiochetti, o Lázaro do cinema, anunciando os filmes inesquecíveis: E o vento Levou, O Manto Sagrado, Amar foi minha Ruína, Casablanca, Janela Indiscreta, o seriado A Legião do Zorro, os heróis Tarzan, a heroína Nyoka, O Gordo e o Magro, Carlitos, Irmãos Marx e outros inesquecíveis heróis e personagens. Ao lado da tabuleta, a loja do Vinícius Chiochetti, que abasteceu, durante muito tempo os estudantes, com canetas, lápis, livros, cadernos e as cabeças dos leitores de jornais daquela época. E o pessoal do Grêmio Estudantil César Mêmolo, do CESUA, da JEC... E de repente um bando de pássaros - colerinhas, os amarelinhos canários-da- terra com seu canto estralado, os pintassilgos com cabeças pretinhas no seu canto longo e meio confuso, os azulões com o macio canto, os curiós com o disputado canto... Tudo isso numa ciranda, interminável. E aí, já até tinha-me esquecido, o inexorável relógio da igreja Matriz começou a anunciar que o tempo, infelizmente, passava. Fazer o quê? Ficaria ali muito tempo vendo aquele desfile interminável, se não fosse pela necessidade de voltar à realidade, pegar o automóvel e retornar a Bauru. Ainda bem porque, apesar de as lembranças serem muitas, o tempo e o espaço são exíguos. Então, até a próxima.
Por João Batista Neto Chamadoira