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A Copa do Mundo, cada ano mais exageradamente divulgada, afinal muito lucro nos negócios paralelos ao futebol e oportunidade para pularmos da nossa mesmice para a repetida e, incoerentemente, nova emoção. Esqueça-se tudo: problemas sociais, brigas, corrupção dos políticos, velhas antipatias, a nossa pobre educação... Bandeiras nacionais aqui, ali, nos carros. Patriomodismo, patrioportunismo. O negócio é futebol, o futebol é negócio. Dunga sim, Dunga não, bancos fechados, suspensão de aulas. E o futebol sem essas apelações é uma festa. Mas, a mídia, a ânsia por audiência e lucro...
As copas de 30, 34 e 38, ouvindo e lendo por aí. A Copa do Mundo de 1950 deixou a primeira impressão de decepção. Dia 16 de julho de 1950. Fui com meu pai no outrora existente e bem bonito estádio do São João Futebol Clube, o Estádio Menotti Barca. Ouvir rádio só em casa. Os ainda movidos a válvulas. Rádio de bateria existia, mas eram raros. Os pequenos rádios de pilha, os de transistor, ainda estavam para ser inventados. Então, naquele dia, o São João, jogava com o time do Mairiporã, pelo campeonato da Liga de Futebol Amador. Quem perderia um clássico desses? O Brasil não parava em dia de jogo do Brasil. Daí, entre a decisão Brasil – do Barbosa, Augusto e Juvenal, Ademir, Friaça e outros – e Uruguai – de Máspoli, Matias Gonzáles, Gighia, Schiaffino, o grande Obdulio Varella e outros – entre a emoção distante do Rádio e a emoção do jogo ao vivo dos jogadores do São João, como Zequinha, Martinzinho e do Mairiporã, como Morvan, Gasosa, a bola e os jogadores correndo tão perto da gente, naquele maravilhoso gramado, o pessoal ficava com o futebol ao vivo.
Não me lembro se o São João ganhou. Mas está ainda na memória, o momento em que eu e meu pai, em nossas respectivas bicicletas, chegamos ali na oficina da Avenida da Saudade, 109. E entre pneus, bicicletas, meu pai, o Quitá, ouviu do meu tio, o Jaime, a notícia: “Perdeu de dois a um.” Só ouvi um lamento e surpresa:”Não diga?”
Pois é... O Brasil perdera do Uruguai em pleno Maracanã. Depois as fotos da tristeza, choro, dos jogadores, da torcida, inconformada com os gols de Schiaffino e de Gighia. O goleiro Barbosa, craque do Vasco virou um bode expiatório. Culpado para todo o sempre.
Veio 1954. Copa na Suíça. 5x México 0. A organização brasileira era tão ruim que nem mesmo os jogadores como Castilho, Píndaro, Pinheiro, Humberto, Julinho Djalma Santos, Brandãozinho, Baltasar, Rodrigues haviam sido informados de que o empate com a Iuguslávia era suficiente para passar a outra fase. Os coitados lutaram como loucos para vencer, e o empate final de um a um classificou nossa seleção. Mas veio a temível Hungria. Uma máquina de jogar futebol. Eram os grandes Puskas, Koksis, Hideguti, Thot e outros. Almocei com meu pai na sala, pois o rádio, naquela época, ficava na sala. E entre uma colher e outra do macarrão, um gol e outro do jogo. O famoso locutor Pedro Luiz narrava o jogo. Os dois primeiros gols húngaros, no começo do jogo, segundo o locutor, foram “roubados” primeiro, em total impedimento; o segundo, de um absurdo pênalti. Depois pelo filme a que assisti, cheguei à conclusão de que os gols foram legais. O jogo terminou em quatro a dois para a Hungria. Brasil eliminado. O time da Hungria havia derrotado a poderosa Alemanha pelo absurdo 8 a 3. E ficou para a final com a própria Alemanha. Já se consideravam os campeões de 1954. Mas é aquela história: futebol tem lógica? Na final, Alemanha, depois de estar perdendo por 2 a 0, acabou ganhando de 3 a 2. Fantástico. Após o jogo contra a Hungria, o jornalista, depois deputado e hoje aposentado, depois de passar pelo Tribunal de Contas do Estado, Paulo Planet Buarque agrediu um dirigente húngaro com uma chuteira. Bom, assim a história mostra.
Em 1958, a maravilha. Na Suécia, o Brasil deu um passeio. Craques como Gilmar, Djalma Santos, Belini, De Sordi, Pelé, Didi, Zito, Garrincha, Zagalo, Vavá mostraram como se jogava bem e bonito o futebol. Igual só em 1970 e 1982. Jogo bonito. Venceu a Áustria e, depois, quebrando a idéia burra de que em time que está ganhando não se mexe. Trocou Joel por Garrincha, Dino por Zito, e pôs Pelé em lugar de Dida e Vavá em lugar de Mazzola. Dois a zero na poderosa Rússia. E veio o País de Gales. Pelé estreava com um gol, com pequeno chapéu no zagueiro. E depois a semifinal com a poderosa França. Foi fácil: 5 a 2. E então a final com a seleção local, da Suécia. Lembro-me, era na hora do almoço. A macarronada os guaranás. Primeiro, o gol meio surpreendente de Liedeholm e depois os cinco gritos de gol do Brasil. Um deles, o terceiro, marcado por Pelé, com o famoso chapéu no zagueiro. E aí a música “A taça do mundo é nossa/ Com o brasileiro não há quem possa/ Eeta esquadrão de ouro/ É bom no samba/ É bom no couro...
Morando ainda em Atibaia, recordo que na Rua José Lucas, passava um caminhão com umas sete pessoas na carroceria, gritando e segurando uma bandeira brasileira. E não entendia muito aquilo. Aquela bandeira, tão respeitada na escola, ali por quê?
Chile, 1962. Estava no terceiro clássico. Preparava-me para o curso de Letras. A Profa. Ivete – onde estará? – levou o rádio de pilha e, na nossa aula, Gilmar, Mauro, Pelé, Zagalo substituíram Shakespeare, Keats, John Steinbek, no jogo contra o México... E foi o gol mais bonito do Brasil no Chile. Pelé, driblou em diagonal, da direita para a esquerda, uns quatro mexicanos lá da direita em direção à área até o chute e gol. No zero a zero a contra a Tchecoslováquia, Pelé deu o adeus àquela Copa. Distensão muscular. E veio o botafoguense Amarildo, ainda estreante na seleção,mas jogando como dono da posição. No jogo seguinte, contra a Espanha, o Brasil venceu por dois a um, de virada, no famoso jogo em que o juiz não viu que a falta do Newton Santos havia sido dentro da área. O zagueiro, malandramente, quando ouviu o apito, pulou para fora da área. Apenas falta. Depois a Inglaterra, 3X1, com Vavá que já brilhara na Suécia e Garrincha, este em manchete na Inglaterra “Garrincha, o extraterrestre”. Nesse jogo é que um cachorrinho perdido no gramado impedia o jogo. Só Garrincha conseguiu pegá-lo. Depois a semifinal com o dono da casa, 4X2, em que Garrincha superou-se, marcando gol de falta e de cabeça. Ai, no domingo, apesar do jogo decisivo, Brasil e Tchecoslováquia, fui ver o jogo do São João Futebol Clube ao vivo, no Estádio Menoti Barca. E ainda deu para chegar a minha casa e ouvir, na voz do Pedro Luiz o gol do Zito, meio de pescoço e o gol de Vavá, numa incrível falha do goleiro tcheco.
Bom, a história termina aqui, pois dali eu partia para São Paulo para estudar Letras e trabalhar. Ouvi, na empresa Moinho Santista, na rádio FM, enquanto trabalhava a medíocre vitória do Brasil contra a Bulgária e as tristes derrotas contra a Hungria – 1X3 e contra Portugal, do famoso Euzébio, 1X3. E adeus...
O restante de 1970 em diante é tão recente, que não vale a pena recordar. Mas uma bela lembrança, a seleção de 1982. E uma péssima lembrança: as seleções da “era Dunga” que jogando, ou não, deixou sua marca que, agora, vai sumir finalmente. E que venha o jogo corajoso, para frente, o estilo artístico e brasileiro de jogar futebol. É só ver a atual Espanha.
Memória cheia, espaço e tempo muito curtos. Até a próxima.í
Por João Batista Neto Chamadoira